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    Amor à Segunda Vista
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Amor à Segunda Vista

    Travessura do destino

    por Bruno Carmelo

    O espectador que assistir a uma sessão de Amor à Segunda Vista sem ter lido a sinopse deve levar alguns sustos. Os dez primeiros minutos condensam o conteúdo que a maioria das comédias românticas demoraria um filme inteiro para desenvolver: garoto tímido e nerd encontra garota tímida e nerd, eles se apaixonam, tornam-se inseparáveis, crescem, casam-se, a carreira dele como escritor deslancha, a relação entre ambos esfria, e ela, inconformada, vai embora. Esta seria uma história singela por si só, mas o interesse do diretor Hugo Gélin se encontra em outro lugar. Certo dia, Raphaël (François Civil) acorda e descobre que Olivia (Joséphine Japy) nunca existiu em sua vida. Ela leva uma existência paralela em que ambos não se encontraram. Cabe ao rapaz conquistá-la mais uma vez.

     

    O roteiro propõe uma incursão interessante na ficção científica ao extrair do gênero apenas o que lhe serve para fomentar o romance. O espectador não receberá explicações quânticas sobre viagens no tempo, nem sobre a possibilidade de múltiplas existências simultâneas. Esta é uma concessão narrativa que solicita a credulidade do espectador: Raphaël apenas desperta numa nova vida, através de um simples corte da montagem. O macho abandonado por sua amada precisa descobrir então o que fez de errado, consertar a situação e se tornar o parceiro amoroso que sempre pôde ser, e que ela merecia. É curioso que a noção de romantismo dessa produção francesa coincida com o mea culpa do homem insensível numa sociedade que não aceita mais a dominação masculina sobre a mulher. Obviamente, nesta trajetória de redenção, as virtudes ainda recaem ao homem arrependido. Embora pregue a paridade de gênero, o filme enxerga em Olivia a figura da musa, a mulher impossível de conquistar, e justamente por isso, o desafio perfeito aos esforços deste Hércules.


     


    Amor à Segunda Vista impressiona pelo tamanho de sua produção. Gélin multiplica os cenários, constrói gigantes torneios de pingue-pongue para filmar uma cena rápida, insere dúzias de momentos de alegria entre o casal, faz contorcionismos com a câmera para as apresentações de Olivia ao piano. A trajetória romântica aparenta um tanto simples devido à previsibilidade, enquanto os elementos de farsa condensam toda a carga cômica (ele precisa fingir não conhecer a mulher que ama para reconquistá-la), mas o filme se leva bastante a sério, incluindo complexas sequências de perseguição para ilustrar passagens do livro de Raphaël, esticando a trama e propondo inúmeras reviravoltas inesperadas para postergar o reencontro. Ironicamente, para um filme que nasce de uma licença fictícia um tanto improvável, o elemento que soa falso são as viradas rocambolescas do roteiro.

     

    Ao menos, Gélin jamais retira o foco dos sentimento de ambos, além de retratar uma bela história de amizade (o convincente bromance com o personagem de Benjamin Lavernhe) e fazer alguns acenos às demais gerações (através da avó representada por Edith Scob). Os atores são competentes na tarefa de encarnarem “adoráveis perdedores”, sorrindo belamente e posando para a imagem conforme solicitado. Gélin aposta num universo de plasticidade codificada, na qual a menina tímida é na verdade uma mulher lindíssima escondida por trás dos óculos de aro grosso e dos cabelos presos, enquanto o suposto geek sem vida social está encarnada num corpo musculoso com sorriso charmoso. Os personagens são belos, talentosos, sensíveis e perfeitos um para o outro, de modo que apenas uma transformação radical como a realidade paralela poderia separá-los – apenas para encaminhar a trama rumo ao inevitável reencontro, é claro.


     


    Amor à Segunda Vista parte de uma iniciativa ousadia para entregar o trivial: ele explode o espaço-tempo para retratar a ideia clássica de destino e amor infinito. Talvez ele saia dos trilhos ao multiplicar as peripécias do herói desengonçado, apostar num formato grandiloquente demais e investir em ornamentos estéticos gastos – a tristeza representada pelas “Gymnopédies” de Erik Satie, como em uma centena de outros filmes. No entanto, quando se concentra no material mais simples e humano, encontra seus melhores momentos. Gélin se mostra capaz de entregar um produto um tanto pomposo, algo que soa ironicamente exagerado neste caso, diante do caráter íntimo da trama. Para os fãs de comédias românticas, buscando uma ligeira variação da fórmula consagrada, o projeto deve corresponder às expectativas.

     

    Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.

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