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    Entre Tempos
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    Entre Tempos

    Pequenas rachaduras

    por Sarah Lyra

    O maior mérito de Entre Tempos, segundo filme do diretor italiano Valerio Mieli, está em sua premissa de reconhecer a inexistência de uma verdade única, capaz de trazer consenso para um conflito. A realidade é uma questão de perspectiva e sempre abre margem para interpretações. Por mais absurdas que possam parecer para uns, são perfeitamente plausíveis para outros. É por esse mesmo motivo que, quando há uma divergência entre duas ou mais partes, existem lados e versões da mesma história. Dizer que Mieli acompanha as etapas do relacionamento amoroso entre dois jovens — que não têm seus nomes divulgados e serão identificados como Ele (Luca Marinelli) e Ela (Linda Caridi) nesta crítica — seria um eufemismo. O diretor incita uma investigação das mais profundas motivações e estabelece um mosaico afetivo pautado nas memórias, evidenciando como experiências prévias moldam nossos ideais de felicidade e influenciam diretamente na abordagem de cada um quanto aos acontecimentos cotidianos de uma relação.

    Para dar vida ao seu roteiro, Mieli se apoia principalmente na fotografia — aqui, com o papel de contrastar a personalidade de seus personagens e assegurar universalidade à trama — e na montagem — essencial para dar o tom contemplativo do longa e ilustrar de forma não-linear o apego do protagonista ao passado. Ele é um homem cético, pessimista e abusa da racionalidade para manter sua vida tolerável, enquanto luta contra as lembranças dolorosas da infância. Ela é o oposto em todos os sentidos, principalmente por nunca ter passado por qualquer tipo de trauma em sua vida. Enquanto se conhecem, a atração é perfeitamente compreensível ao espectador. Não por conta do clichê de que opostos se atraem, mas porque existe, em ambos, um fascínio pela visão de mundo do outro, a ponto de apostarem no que estava fadado a acabar — ou ao menos ser muito difícil de manter.



    Na cena em que os personagens centrais contam a um casal de amigos a história de como se conheceram, Mieli intercala cortes rápidos com uma mudança drástica na fotografia. Enquanto Ela narra a história, as cores são quentes, a garota usa um vestido branco com um penteado elaborado, e Ele veste um elegante terno preto por cima de uma camisa branca. Tudo à sua volta é etéreo. Quando Ele entra para apresentar um detalhe da mesma história, as luzes se tornam azuladas. O vestido da namorada não é mais branco, é vermelho. A camisa branca é substituída por vestimentas pretas, cabelo bagunçado e olheiras marcantes. Não é possível saber o que de fato aconteceu — se é que “de fato” existe —, assim como não importa quem tinha os detalhes mais precisos na memória, somos apresentados às perspectivas de cada um e isso é o suficiente, porque alerta para as frustrações que estão por vir.

    "Nunca mais seremos íntimos assim", diz Ele, após a primeira noite do casal juntos, com um ceticismo beirando o cruel, mas que ao mesmo tempo escancara a dificuldade dele em lidar com perdas, sejam elas quais forem. Ela, por sua vez, não é ingênua a ponto de acreditar que as coisas nunca vão mudar, mas é otimista em seu discurso de que o desgaste é normal e que a perda da paixão acontece com todos os casais. Por toda essa construção das expectativas de cada um, entrelaçadas com suas experiências de vida mais marcantes, não é surpreendente ver que, anos depois, o relacionamento chegou exatamente onde eles previram. E embora identifiquemos com certa antecedência o resultado do embate constante, a concretização não é menos devastadora. Nós, enquanto espectadores, nos identificamos com — e ao mesmo negamos — a racionalidade dele, mas também sofremos a perda dos ideais dela.



    É ainda mais revelador observar a inversão de papéis em suas trajetórias, principalmente quando percebem que as mesmas qualidades que o fizeram se apaixonar um pelo outro agora são o motivo pelo qual não conseguem mais viver juntos. "Não posso conversar com ele sobre isso, preciso estar sempre feliz", resume Ela, enquanto explica para um amigo as dores que sente pela perda recente do pai e se dá conta do fardo de ser a pessoa leve da relação o tempo todo. "Você amava o jeito atormentado dele", rebate o personagem do outro lado. Ele, entretanto, é confrontado pela própria sensatez. "Não é culpa nossa, começou a acabar quando tudo começou", diz, na tentativa de retomar o controle do incontrolável. No que é uma das cenas mais impactantes do longa, o protagonista se liberta de si mesmo ao se debruçar em um choro sofrido, após revisitar as próprias dores através de fragrâncias de uma loja de perfumes.

    Entre Tempos é uma trajetória dura, que nos conduz por um processo de empatia e revisão de nossas próprias idealizações. Para Mieli, não são os grandes acontecimentos ou as intensas reviravoltas que moldam o rumo das nossas relações, mas sim as "pequenas rachaduras" do dia a dia, que, acumuladas, nos tornam pessoas mais rígidas, incapazes de penetrar a armadura que nós mesmos construímos.

    Filme visto no 8 ½ Festa do Cinema Italiano, em agosto de 2019.
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