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Morra, Monstro, Morra
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Morra, Monstro, Morra

O jogo dos outros

por Bruno Carmelo

Uma força maligna ataca um vilarejo. As vítimas – sempre mulheres – têm a cabeça decepada, às vezes um dente está encravado no corpo. O caráter sexual dos ataques é inequívoco. Um homem é logo preso, e as vozes estranhas que saem de sua boca não deixam dúvida quanto à presença de algum perigo relacionado a ele. Mas como este sujeito comum conseguiria cortar pescoços a dentadas? De onde viria aquela fumaça estranha pelos arredores, com um desenho maligno? O que dizem as vozes na cabeça dele?


O quebra-cabeça montado pelo diretor Alejandro Fadel é muito sedutor. Existem pistas de sobra, mas elas se contradizem. As imagens sugerem uma confluência de subgêneros do terror que não costumam andar juntos: as possessões demoníacas, os monstros, os assassinos em série. Misturando grandes planos da natureza e cenas violentas com direito a litros de sangue e vísceras expostas, Muere, Monstruo, Muere promete brincar com diversas fontes de tensão, em particular o “medo do medo”, como diz um personagem. Neste primeiro momento, muitas interpretações são sugeridas, mas nenhuma delas é efetivamente confirmada. O jogo está em aberto.


 


Aos poucos, no entanto, entram em cena personagens capazes de decifrar o enigma sozinhos. David (Esteban Bigliardi), o homem supostamente possuído, ouve as vozes, decifra exatamente o que estão dizendo, o padrão por trás delas, a intenção daquela força. Ele faz análises linguísticas, diferencia “maldito” de “mal dito”, lança o conceito de “prisão sensorial”, descarta algumas leituras falsas. Ele poderia dizer tudo, se quisesse, mas permanece curiosamente quieto, postergando o suspense por conveniência narrativa. O capitão (Jorge Prado) efetua longas declarações sobre tipos de fobias, discorre sobre o papel social do medo. Os dois intelectuais desta narrativa interpretam o fenômeno do vilarejo, mas também o próprio filme, o tempo inteiro.

 

Diante de tantas leituras, talvez não exista espaço para o espectador, que recebe ao mesmo tempo o conteúdo e seu manual de instruções, como numa palestra. O que pertencia ao domínio da sugestão se converte em evidência, e mesmo as ambiguidades do início se esclarecem. Existe um monstro, de fato? O filme fornece a resposta, com toda a clareza possível. Muere, Monstruo, Muere possui uma série de conceitos criativos, aplicados com devido refinamento estético – exceto pela maquiagem, de teor amador por algum motivo. Mas Fadel se empolga demais com as próprias leituras e os próprios recursos para permitir ambiguidades.


 


Por fim, temos em mão um filme de potencial, com algumas imagens magnéticas, perturbadoras. Os atores também foram escolhidos a dedo por sua capacidade de estranhamento – a voz cavernosa e a dança ritualística de Cruz (Victor Lopez) são particularmente interessantes. É uma pena que o espectador seja colocado numa função passiva. O diretor demonstra claro talento para manipular as regras do terror. Falta pensar no projeto como veículo de comunicação, como um projeto artístico que, por definição, só se completa nos olhos de quem o vê.

 

Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em maio de 2018.

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