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    Vision
    Críticas AdoroCinema
    1,5
    Ruim
    Vision

    A ironia da falta de visão

    por Sarah Lyra
    A diretora japonesa Naomi Kawase parece sofrer, em Vision, uma forte influência do trabalho de Terrence Malick, especificamente da estética e ritmo empregados em A Árvore da Vida. Ao contrário do diretor norte-americano, no entanto, ela tem dificuldade em entregar um conjunto que demonstre propósito e coerência. Há um desejo claro de ser transgressor e existencialista que nunca se concretiza, em partes por conta do roteiro também assinado por Kawase, cujo texto carece de maturidade para desenvolver os subtextos da trama. Com isso, a direção acaba transformando a produção em um longa de características new age de pouca substância.

    Uma estranheza se faz presente de forma constante na trama conduzida pela protagonista Jeanne (Juliette Binoche), o que fica evidente pelo tom misterioso dos diálogos e na convivência dos personagens na floresta. A sensação é de que algo mítico está na iminência de ocorrer, e todos estão cientes disso. O único, além do espectador, que parece não entender a forma de comunicação pautada em olhares profundos, lágrimas contidas e frases enigmáticas de efeito é o dono da cabana, Tomo (Masatoshi Nagase). Em um primeiro momento, o propósito de Tomo na trama parece ser justamente o de um guia, e o roteiro sinaliza a intenção de torná-lo a ponte entre o espectador e os acontecimentos, mas nenhum aprofundamento é feito nesse sentido.



    Há uma certa indulgência em Vision. A cada cena, o filme pede um pouco mais de paciência ao espectador, porque este será recompensado ao fim. Acompanhamos um história que, além de pouco coesa, lança perguntas de forma quase arbitrária, sem a menor intenção de respondê-las ou de causar uma reflexão. Binoche se desdobra para criar uma figura ambígua e rica em sentimentos, mas nunca entendemos de fato a serenidade misturada com uma suposta dor profunda expressadas em suas feições — nem mesmo na cena final, que se propõe a elucidar minimamente os segredos envolvendo a erva chamada visão, e o passado de Jeanne. Em meio a um desfecho sem nenhum tipo de ápice, é surpreendente notar que encerramos a projeção tão perdidos quanto no início.

    No que diz respeito à fotografia, as tomadas de contra-mergulho são excessivas e repetitivas, assim como os closes em folhas e galhos de árvore ao vento, que parecem sempre dizer: “olhe atentamente, e verás”, mas sem realmente nos permitir ver qualquer alteração nas imagens que, por fim, servem unicamente para dar um senso de estética à floresta Nara, marcada por seus verde-azulados e brancos estourados do inverno, assim como cenas lavadas em contra-luz no verão. Outra decisão pouco explorada é a de inserir uma segunda linha do tempo, ambientada no futuro, que, após duas aparições, nunca mais é retomada ou apresenta qualquer função na narrativa. Para um filme que se dispõe a adotar um ritmo assumidamente lento, Vision acaba soando apressado por não aprofundar a caracterização de seus personagens, elaborar sua ambientação e desenvolver sua narrativa.
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    Comentários

    • Mario R
      O que se salva no filme é o interesse antropológico das múltiplas e variadas maneiras de relação entre cultura e natureza. Neste caso, temos a particularidade da sutil conexão do povo japonês com uma paisagem de florestas de montanha histórica/milenar - e aqui estamos longe da visão idílica de uma natureza intocada - construída culturalmente e permeada de ancestralidade. Mas essas questões, infelizmente, ficam nas margens do contexto narrativo. Penso que a diretora perdeu a oportunidade de explorar melhor esses contrastes de visões e concepções de natureza a partir do enredo de imersão etnográfica de uma escritora (ou cientista?) ocidental em uma aldeia milenar japonesa.
    • Helia H
      decepção! Binoche e Kawase me levaram a crer que o filme teria um padrão razoável de qualidade, mas não tem. Enredo muito fraco, com muitas pontas soltas sem sentido, clichês aos montes, filmagens de má qualidade (pessoa dança na floresta totalmente sem vento e cortes mostram as árvores balançando loucamente), Binoche vai à floresta de rímel e base... diálogos pobres. Pretensioso, história totalmente inverossímil, interpretações fracas. Binoche anda decepcionando bastante ultimamente, infelizmente.
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