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Cartas para um Ladrão de Livros
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Cartas para um Ladrão de Livros

Questões de ética profissional

por

Laéssio Rodrigues de Oliveira é especializado no roubo de livros raros. Ele admite com orgulho todos os crimes e, ao término das sucessivas penas de prisão, volta a furtar livros, gravuras, revistas. “Arrependimento de quê?”, contesta. “Eu não matei ninguém”. Para o ladrão assumido, não existe problema em furtar bens públicos que ninguém realmente lê, e que permanecem em mau estado nas estantes das bibliotecas. É melhor roubar, vender para pessoas ricas e faturar com o produto. O problema seria entrar na casa de moradores e subtrair um bem privado. Isso, ele não faria jamais.


Este é o personagem principal de Cartas Para um Ladrão de Livros, documentário tão complexo quanto divertido, dirigido do por Carlos Juliano Barros e Caio Cavechini. Laéssio não é o único confrontado a dilemas éticos da profissão. Desde o início, os cineastas questionam sua própria postura em relação ao projeto, levantando autocríticas sobre a possível idealização do protagonista, o encorajamento do crime ou o uso de verbas públicas para produzir um filme sobre um homem que depreda o patrimônio público. Os criadores antecipam comentários que devem escutar durante o lançamento comercial, blindando-se pela autoconsciência a respeito dessas questões.


 

Assim, o documentário busca ser o mais transparente possível, ao limite do didático. A montagem expõe as primeiras cartas trocadas com Laéssio, solicitando entrevistas e sugerindo a criação do filme. O espectador descobre os bastidores que costumam ficar ausentes dos cortes finais, como o entrevistado indagando sobre o uso posterior de suas falas, colocando o microfone na camiseta ou ainda telefonando para Barros quando deseja conversar. Existe evidente amizade entre eles. Embora Barros e Cavechini nunca tenham agido ativamente para libertar o ladrão de livros, sabem que o retrato simpático seria favorável ao criminoso.

 

A empreitada obtém sucesso em duas esferas de difícil execução. A primeira delas é o retrato do próprio Laéssio, uma figura contraditória e multifacetada. Ora ele aparece como homem culto, de linguagem refinada e paixão literalmente erótica por livros, ora diz ser apenas um aproveitador, que vê nas publicações raras uma oportunidade de lucro fácil e de fama. Às vezes, demonstra solidariedade com os colegas prisioneiros, a maioria analfabeta, em outros momentos trata os detentos com profundo senso de superioridade. O protagonista é obcecado com a possibilidade de se distinguir, se tornar mais conhecido que os demais, exercendo um impacto mais forte na sociedade do que os outros. Por vaidade e egocentrismo, o convite ao documentário se revela irresistível.


 

O segundo aspecto de grande interesse no projeto é a expansão do roubo de livros para uma compreensão social e política do crime. Os diretores efetuam uma conexão importante entre miséria e delinquência, além de insistirem no fato de que o mercado ilegal de obras raras existe devido à compra destes produtos por homens riquíssimos, cientes da procedência ilegal dos mesmos. Laéssio é facilmente detido e preso, juntando-se a outros homens negros de origem pobre, embora os maiores ladrões da história permaneçam anônimos. Um delegado, logo após dizer que o trabalho da polícia é impecável e que “a cadeia funciona”, é forçado a admitir que “algo emperrou” na sequência das investigações, incapazes de atingir as pessoas poderosas envolvidas.

 

Cartas Para um Ladrão de Livros parte de um caso excepcional, quase lendário, para refletir sobre o funcionamento corrupto das engrenagens sociais. Os cineastas às vezes tropeçam na abordagem com Laéssio, recorrendo a eufemismos questionáveis – eles chamam os roubos de “peripécias, algumas delas criminosas” – e não escondem a ambiguidade do retrato amoral de um ladrão. Ironicamente, a ética cinematográfica se torna alvo das maiores dúvidas, ao invés da ética do criminoso. Pelo menos, enquanto os cineastas pisam em ovos para criar seu filme, o espectador acompanha cada passo da travessia, numa abordagem possivelmente ingênua, mas bastante honesta.

 

Filme visto na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro de 2017.

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