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    Lara
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Lara

    Feridas que não saram

    por Barbara Demerov
    Uma mãe pianista e um filho pianista. Uma mulher que não seguiu seu sonho e um jovem que está prestes a realizar o seu. Este drama alemão vai além de contar a história de uma complicada relação familiar, pois a apresenta primeiro pelas margens, gradualmente, até se revelar por completo. É até curioso que Lara seja ambientado no período de um único dia, pois, diante de todo o conteúdo que apresenta, a carga emocional na qual o filme se sustenta é intensa e surpreendente.

    Parte desta surpresa vem pela personagem que nos guia e que mantém a história consistente do início ao fim. A primeira cena logo nos faz pensar numa possibilidade de suicídio de Lara, e o que surge a partir deste pensamento faz com que o enredo mostre suas inúmeras camadas, todas muito diferentes e ao mesmo tempo complementares. Descobrimos que o dia em questão é seu aniversário e também a data de uma grande apresentação musical do filho Viktor (Tom Schilling). Sob o olhar da protagonista, vemos todas as particularidades de sua personalidade: a mãe carinhosa, um tanto possessiva e também amedrontada, além da mulher insatisfeita com uma escolha específica que fez no passado.

    Lara fala sobre como o peso de certas escolhas pode afetar não só o presente como a vida de quem nada teve a ver com isso. Como mãe, Lara está feliz pelo filho chegar a um lugar que sempre sonhou, mas como mulher e ser individualista, ver o sucesso da pessoa mais importante de sua vida também lhe faz sentir uma dor e remorso profundos. Corinna Harfouch mescla os dois lados de sua personagem de maneira virtuosa - e o fato do filme lhe dar espaço para ser maldosa e amável em seus extremos só estende as nuances de uma personagem que é julgada pelo mundo e sabe disso, mas nunca se sente ameaçada.



    Ao acompanhar a personagem por diferentes lugares e estados de espírito (ela chega a ir à uma loja para comprar um belo vestido e, logo antes da apresentação musical, joga-o no lixo de um banheiro), o filme mescla o drama familiar com o retrato solitário de alguém que, por abrir mão de sua vocação, perdeu o momento certo de entrar no palco. Por isso é tão amargo ver no olhar de Lara o misto de orgulho e raiva ao ver seu filho se apresentar; assim como é doloroso ver tamanha influência que essa mãe tem sob o filho, a ponto de fazê-lo duvidar de seu trabalho autoral horas antes de seu concerto.

    Passagens como a deste diálogo específico remetem ao relacionamento problemático entre professor e aluno em Whiplash, mas Lara consegue ser mais interessante pela ligação emocional criada entre os personagens: não é só de aprovação que Viktor precisa, mas do apoio da mãe também. Apesar de ser fácil e compreensível sentir raiva da protagonista quando ela se porta com tanta frieza, o longa não deixa de fixar suas motivações (sem torná-la uma santa ou uma completa vilã). No fim das contas, foi Lara quem perdeu e ainda perde.

    Quando seu antigo professor de piano (convidado para o concerto do filho) fala sobre o talento que via em Lara, fica claro como a protagonista sempre levou mais em consideração o reconhecimento externo do que o interno, que acabou sendo deixado de lado por uma rejeição que nunca aconteceu. Quando a protagonista se dá conta de que ela tinha o necessário para seguir com seus sonhos, já se foram décadas de ressentimento e gritos silenciosos. A cena final, no entanto, dá uma certa esperança de que nem tudo se perdeu.

    Filme visto durante a 43ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2019.
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