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    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    A Última Nota

    Melancolia cadenciada

    por Barbara Demerov
    Quando falamos sobre histórias que abordam a terceira idade e dão ênfase na contemplação (ou até mesmo questionamentos) contidos neste período da vida, alguns filmes se destacam muito mais por conta de seus personagens do que pela execução do todo. Nossas NoitesElla & John são bons exemplos, visto que ambos contém ótimas atuações de um elenco inspirado a entregar veracidade e sutilezas. Em A Última Nota, é possível ver basicamente essa mesma tendência se desenrolar.

    A atuação contida e ao mesmo tempo marcante de Patrick Stewart como um pianista de sucesso traz um brilho melancólico à história - especialmente quando o espectador passa a conhecer mais de sua jornada através das poucas pessoas que os cercam. Na verdade, conhecemos Sir Henry Cole através da única pessoa que vemos ao seu lado fora a jornalista interpretada por Katie Holmes: seu agente Paul (Giancarlo Esposito).

    Quando Helen (Holmes) aparece em sua vida e imediatamente passa a orbitar no universo interno de Henry, A Última Nota se prende ainda mais ao significado da música erudita para os dois personagens. Porém, enquanto Henry é o elemento que une todas as pontas do filme, Helen não se destaca além do fato de ser uma pessoa responsável por querer a felicidade do pianista. Ela não ganha tanta atenção enquanto mulher ou profissional, pois sua prioridade é apenas estar ali para ajudar Henry a reencontrar seu caminho.



    Por este ser um filme que apoia-se inteiramente ao drama pessoal do protagonista, a presença de Helen não é algo extremamente incômoda; mas é fato que há uma certa atmosfera utópica envolvendo a relação dos dois personagens - ainda mais quando a vemos oscilar entre admiração e paixão. Os motivos pelos quais Helen quer estar presente são justificados de forma concisa, mas seu próprio desenvolvimento deixa bastante a desejar.

    A Última Nota se torna mais interessante quando analisamos o peso mental de Henry, assim como seus deveres e suas dúvidas quanto a seguir tocando piano ou ceder às pressões profissionais que surgem através de seu agente. Apesar de não delinear sua história com mais detalhes, o filme se sustenta na atuação de Stewart, que traz um ritmo equilibrado entre momentos leves e opressivos.

    Além disso, o ator prioriza olhares distantes, um trabalho físico que emana o incômodo por estar na pele de uma figura inspiradora para muitos e a desorientação quanto a como aproveitar a vida dando mais atenção a si mesmo. Ainda que a relação entre Henry e Helen demore a tomar consistência e a dizer a que veio, A Última Nota se encaixa na definição de promover a reflexão através de uma figura solitária que já atravessou seus dias de glória e, só então, encontra um reconhecimento transformador.
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    Comentários

    • RachelGutiérrez
      O filme é também uma homenagem a Nietzsche, desde a epígrafe com a famosa frase : o mundo não teria sentido sem a música. É uma reflexão sobre o significado do intérprete na mais imaterial das artes - a música, seu papel, seu destino, sua missão. E a conclusão do artigo (póstumo) da jornalista é que devemos a ele, acima de tudo, gratidão. A crise existencial do personagem que enfrenta um retorno em sua carreira, já maduro e triste após terríveis perdas em sua vida é, podemos dizer, superada com a ajuda de sua admiradora que pouco a pouco por ele se apaixona. As paisagens da região onde Nietzsche passava temporadas, e sobretudo a escolha do repertório pianístico - de primeiríssima qualidade :Schumann, Chopin, Bach, Beethoven, Scriabin é também paisagem, a que reflete e revela a alma do artista. O filme é poético, filosófico, sério e triste. Contribui para aprimorar nossa cultura e estimular nossa sensibilidade. Beleza de realização e de interpretações.;
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