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Po
Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Po

Pobre pai

por Bruno Carmelo

Pobre David (Christopher Gorham). Na cena inicial, ele chora no funeral da esposa. Depois, chega em casa e tem que cuidar de Po (Julian Feder), criança vítima de um autismo severo. No trabalho, o engenheiro está aparentemente encarregado de construir um novo avião sozinho, com data limite para apresentar um modelo revolucionário. Depois ele perde o emprego, perde a escola do filho, perde o plano de saúde, perde o próprio filho no parque, recebe uma multa, enfrenta problemas com o carro. A lista poderia continuar. A vida de David não é apenas dura, ela é a representação do calvário.


Como se pode perceber, o drama propõe uma conexão com o espectador através da piedade. Somos convidados a ter profunda pena deste homem, algo reforçado pelas escolhas estéticas: uma música triste ao piano ocupa 80% das cenas, os enquadramentos são fechados nos rostos para percebermos melhor as expressões de tristeza, a paleta de cores adota tons pastéis, tristes. A maioria das cenas termina com um fade longo e melancólico, espécie de reticências contínuas suspendendo a ação. David oscila entre a depressão profunda e o esgotamento nervoso.


 


Po não aspira à originalidade, e nem seria obrigado a fazê-lo. O diretor John Asher busca criar uma história de superação, curiosamente privilegiando o ponto de vista do pai ao invés da subjetividade do filho. Os melhores momentos do filme se encontram nos devaneios dentro da cabeça do garoto autista. Neste mundo de fantasia, ele se revela mais articulado, explora novos universos, antes de voltar à vida hermética de bullying na escola e de cuidados diários dentro de casa. Infelizmente, estes instantes são raros. O roteiro privilegia o ponto de vista externo, a obrigatoriedade de cuidar da criança autista. Po é transformado em fardo, como se o pai fosse testado para ver até onde consegue aguentar antes de explodir.

 

“Deus escreve certo por linhas tortas”, lembra uma personagem. Embora a abordagem não seja explicitamente religiosa, ela adota o raciocínio cristão de que o sofrimento enobrece o homem, e de que os obstáculos à nossa frente fazem parte de um plano superior e indecifrável. O super-herói dessa ideologia cristã não é o viril homem de ação, e sim o sujeito bondoso e resistente, que ganha como recompensa uma bela mulher (Kaitlin Doubleday) se atirando em seus braços à primeira vista. Seguem-se então muitas cenas de caminhada na praia, meia dúzia de imagens ao pôr do sol, discursos com frases de efeito. A ideia estereotipada da moral se combina com uma ideia igualmente estereotipada da estética.


 


É surpreendente que o projeto tão empático com as vítimas (pai e filho) faça julgamentos morais a David com frequência, quando a postura mais respeitosa seria compreendê-lo sem apontar culpados. Do mesmo modo, surpreendem as passagens absurdas do roteiro, destinadas a testar os laços afetivos entre os personagens (a atitude da diretora da escola em relação ao bullying, um momento de fuga). Po não se contenta em trazer à tona o debate sobre o autismo: ele precisa dizer quem está certo e quem está errado, enaltecendo as vítimas e punindo exemplarmente os carrascos. O filme incomoda pela sensação de chantagem emocional, mirando numa sensibilização epidérmica do espectador (quem não se comove com uma criança órfã, com necessidades especiais, e um pai pobre e viúvo?), ao invés da abordagem racional, marcada por nuances.

 

Se fosse apenas um exemplar um tanto acadêmico dos “dramas de doença”, poderia ganhar alguma repercussão junto a títulos do porte de Doce NovembroLado a Lado e Extraordinário. No entanto, a abordagem cinematográfica é exagerada e explícita, duvidando da capacidade do espectador em compreender conflitos simples por conta própria. Po pega o espectador pela mão e o conduz através de uma trajetória de purificação na qual a criança autista é transformada em acessório narrativo. Ao final, não é de se espantar que todos os problemas sejam superados com uma facilidade mágica: esta é a recompensa a David por ter resistido à provação. O personagem já foi torturado o suficiente, então chega a hora do inevitável final feliz. Afinal, é para isso que vamos ao cinema, não?

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