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    O Despertar das Formigas
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    O Despertar das Formigas

    Profundo como um formigueiro

    por Barbara Demerov
    Por mais que pareça não fazer sentido num primeiro momento, o título deste filme vai se conectando com sua protagonista, Isabel (Daniela Valenciano), numa crescente ao longo da projeção, e faz isso de forma suave, como um longo suspiro. Assim como as formigas num formigueiro, que seguem regras todos os dias em prol do bem-estar coletivo, a mãe e dona de casa também passa seus dias na mesma zona de conforto, ciente de não haverão mudanças bruscas de um dia para o outro. Mas, como se a maternidade de duas garotas e um casamento já não lhe tomem bastante tempo e atenção, seu marido ainda sonha com mais um filho - e torce para que seja menino, para que a família fique ainda mais completa.

    A grande questão que ronda O Despertar das Formigas é a manifestação da voz própria de Isabel, que aos poucos vai compreendendo os problemas de seu ambiente familiar (a pressão dos parentes, a invisibilidade do trabalho de uma mãe) e, felizmente, a si mesma (suas vontades e sonhos). Mas a diretora Antonella Sudassasi Furnis não vilaniza nenhuma das partes e executa este complexo olhar de forma terna. Aproveitando as sutilezas da atuação de Valenciano, a cineasta claramente prioriza os sentimentos de Isabel, mas numa direção que não só mostra suas vontades mais silenciosas como suas incertezas mais profundas.

    Aliado a uma fotografia de cores suaves e claras, que não evidenciam logo de cara a batalha interna da protagonista, talvez um dos elementos mais interessantes do longa seja a forma como Furnis acompanha Isabel com a câmera. Desde as tarefas diárias como arrumar a mesa até seu trabalho como costureira, nada que nos é exibido soa duvidoso por estar ali. A única lâmpada da casa serve tanto para a família ver televisão como para a mãe enxergar exatamente o que está fazendo na máquina de costura. É a partir dessas sutilezas visuais que nos aproximamos mais de Isabel, e essa "relação" acontece de forma natural. A direção é muito caprichosa por nos dar uma visão detalhada do universo particular da personagem.



    E, além da câmera captar seus movimentos pelo lar, ela também registra os olhares de sua protagonista - especialmente o olhar de apreensão durante a relação sexual com o marido, que finge não ver que sua esposa não quer mais um filho. O silêncio que a mesma faz logo na primeira cena do filme, com a família "cobrando" um novo integrante da família, já seria o suficiente para todos entenderem que a vontade precisa vir da própria mãe... mas é sabido que isso ainda não acontece devidamente numa sociedade patriarcal.

    Ainda assim, O Despertar das Formigas não é um filme sobre abuso psicológico ou físico do homem para com a mulher. Também não chega a ser uma experiência aflitiva pelo fato de observarmos a dor silenciosa de uma mãe que quer ser uma mulher acima de qualquer coisa. O maior mérito da obra é colocar amor e carinho até mesmo nestes momentos de dor, transformando, assim, essa história de dúvidas numa história sobre identidade própria.

    Próximo ao desfecho, é visível que Isabel já se tornou outra mulher: segura de si e de suas vontades, mas simultaneamente apaixonada pelo marido e suas filhas. Ela nunca os trata com maldade e prefere resolver tudo da maneira mais simples possível: com sua voz, proferindo aquilo que acha o melhor a se fazer. O longa mostra que é possível viver sendo livre e apegada às raízes que se constroem num casamento - sem precisar se podar ou se rebelar. Por mais que aborde questões como feminismo e o machismo "invisível", O Despertar das Formigas não deixa de ser um ótimo exemplo de como a voz da mulher tem poder da forma mais simples possível: com base no diálogo.
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