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Através do Fogo
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Através do Fogo

Drama sem melodrama

por Sarah Lyra

Em cinebiografias, de modo geral, principalmente uma que trate de situações trágicas, é tentador recorrer ao melodrama e a uma visão romantizada da personalidade retratada, como forma de trazer identificação e apelo emocional à narrativa. O problema dessa abordagem é que, frequentemente, ao final da trama, temos a sensação de saber mais sobre o idealismo do diretor do filme do que sobre as dificuldades reais do retratado em sua condição. Felizmente, Através do Fogo escapa, em partes, à essa tentação e exibe um esforço admirável de se diferenciar dentro do gênero.

O filme conta a história de Franck Pasquier (Pierre Niney), um bombeiro de Paris que parece ter a vida perfeita: um casamento feliz, gêmeos a caminho e uma competência invejável no trabalho. Ao concluir seu treinamento, o jovem é promovido a chefe da divisão de incêndios do Corpo de Bombeiros. Um dia, Franck e sua equipe são chamados para dar suporte a um incêndio de larga escala, mas ele acaba preso no meio das chamas durante uma tentativa de salvar seus companheiros. A partir de então, ele passa a lidar com as consequências do acidente e a redescobrir a vontade de viver.


Em seu primeiro ato, Através do Fogo é eficiente em nos conduzir pelo intenso treinamento de Franck, com o intuito claro de nos apresentar não apenas aos ambientes ocupados pelos personagens, mas também à natureza perfeccionista e determinada do protagonista. Em uma das primeiras cenas do longa, os bombeiros se reúnem para homenagear os profissionais mortos em ação, e é interessante ver, por exemplo, a perfeição com que Franck executa a acrobacia escolhida para saudá-los, enquanto os demais companheiros cumprem a tarefa com alguma dificuldade. É ainda mais revelador observar como Franck se distancia de seu melhor amigo, Martin (Vincent Rottiers), quando este cai do telhado durante um chamado e sofre diversas fraturas no corpo. Na tentativa de tranquilizar sua esposa Cécile (Anaïs Demoustier) quanto à natureza perigosa do trabalho dos bombeiros, ele reforça que jamais passará por uma situação semelhante, porque ele (ao contrário dos outros) é um profissional “obediente”, deixando implícito, assim, que, inconscientemente, culpa Martin pelo acidente que sofreu.

Outro mérito do longa está na belíssima direção de fotografia de Renaud Chassaing, que adota tons quentes no primeiro ato (em referência não apenas ao trabalho de Franck como bombeiro, mas também ao ideal de vida perfeita que ele levava) em contraste com os tons frios e azulados do segundo (quando Franck já perdeu tudo e não tem mais vontade de viver). É válido destacar também a cena do incêndio, um dos pontos altos do filme, que nos insere em meio às chamas e desperta uma sensação inquietante de enclausuramento. Essa é uma daquelas situações em que uma imagem é capaz de estimular os sentidos, como se quase pudéssemos sentir a dor, a dificuldade de respirar e a queima dolorosa no corpo de Franck no momento em que fica preso entre as chamas. Uma cena surpreendente, que consegue ser agonizante sem ser gráfica. 

É válido ressaltar que a atuação de Pierre Niney é um diferencial para que as pretensões do roteiro sejam bem executadas, principalmente no segundo ato do longa, quando tudo que se vê de Franck é o olhar, que transita entre a raiva e a dor com maestria, e se distancia completamente do homem doce e gentil do primeiro ato.

Apesar dos acertos, Através do Fogo peca ao não aprofundar devidamente as problemáticas óbvias de uma situação trágica, como o fato de Cécile viver em um nível de exaustão tão intenso, que tem dificuldade em enxergar Franck como marido, uma característica que muito se assemelha à abordagem de A Teoria de Tudo, de James Marsh, que também se recusa a admitir a natureza conflitante da esposa e um possível interesse sexual em outros homens. O roteiro do longa francês até flerta com essa possibilidade ao inserir, por exemplo, duas cenas entre Cécile e o médico de Franck, mas não há qualquer tipo de problematização acerca da interação entre os dois, e a sugestão quanto às dificuldades enfrentadas por ela é ainda mais sutil do que na produção americana. O roteiro também perde a oportunidade de explorar mais a fundo o fato de que Franck, após o acidente, exibe comportamentos muito parecidos aos das filhas de um ano, que, assim como ele, ainda não sabem comer, andar e executar atividades básicas sem supervisão, o que, consequentemente, o faz parecer um terceiro filho aos olhos da dedicada esposa.

Essa falta de ambição em abordar os conflitos internos de cada personagem acaba levando o filme a um desfecho pouco envolvente. No fim das contas, talvez o maior mérito de Através do Fogo resida no fato de que, mesmo diante de falhas que poderiam facilmente ser evitadas, saímos da projeção com uma propensão a admirar a trajetória do longa e de uma história que certamente tem carisma e apelo emocional sem precisar se render ao convencional.

Filme visto no Festival Varilux de Cinema Francês, em junho de 2019.

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