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    Pra Ficar na História
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Pra Ficar na História

    O pequeno museu da imigração italiana

    por Bruno Carmelo

    Uma casa de pedras, antiga, com mesas rústicas e objetos à disposição. As louças e móveis vêm da Itália, terra dos familiares de Luiz Henrique Fitarelli. Aos poucos, com recursos próprios, o veterinário passou a investir na coleção destes resquícios, compondo um pequeno museu ainda em fase de construção, sem visitantes, nem mapeamento histórico e geográfico de cada peça. Para o personagem, o valor daquele espaço se dá sobretudo num âmbito pessoal.


    Como pode se perceber, a dimensão patrimonial e institucional do empreendimento de Fitarelli é limitada. No documentário Pra Ficar na História, o que resta das gerações de colonos italianos no Brasil são os sentimentos e sensações, ou seja, o prazer de falar a língua, admirar as fotos dos avós, cozinhar à moda antiga, reparar peças de muitas décadas atrás. O filme do diretor Boca Migotto se dedica ao impacto individual deste período, ao invés de suas implicações socioeconômicas. Quem deseja descobrir mais sobre as circunstâncias da chegada dos imigrantes durante a Primeira Guerra Mundial precisará buscar em outras fontes.



    Diante deste escopo voluntariamente intimista, o elemento que mais chama a atenção é a deslumbrante fotografia. Bruno Polidoro utiliza o formato scope para explorar a solidão do homem no imenso espaço aberto e a textura de cada objeto nos espaços internos. Ele efetua um trabalho magistral com as luzes naturais, tanto ao ilustrar as propriedades de Fitarelli quanto nos tons crepusculares de fim de tarde durante uma viagem à Itália. Raios de luz entram pelas janelas e refletem nos espelhos; uma casa demolida é filmada como uma gigantesca obra de arte conceitual. Mesmo as luzes de lâmpadas no fundo de um corredor servem para criar novas texturas e gerar composições impressionantes.


    A montagem e o trabalho de som direto são igualmente elegantes. A curta duração do projeto é agenciada por um ritmo fluido, oferecendo um olhar ora intervencionista, ora distanciado. Migotto às vezes se coloca em cena, para justificar o interesse pessoal no tema, enquanto em outros momentos se limita a observar seu personagem à distância, através de elementos arquitetônicos, a exemplo do instante em que Fitarelli lê uma carta sobre seus antepassados. O interesse por estas pessoas é combinado com respeito pela intimidade. O humanismo é forjado na parceria: Pra Ficar na História se organiza junto do colecionador, e não a partir dele. Fitarelli é sujeito, não objeto.


    Apesar de tamanho refinamento estético, o projeto traz um discurso simples até demais. Durante dois terços da narrativa, a voz é controlada por Fitarelli, sugerindo que a preservação da memória é importante, e que a manutenção de um espaço deste tipo exige esforços e recursos imensos. É preciso preservar o patrimônio, diz-se. É preciso valorizar as raízes, conhecer o passado, ter orgulho da trajetória de nossos antepassados, por mais pobres e sofridos que tenham sido, porque foram eles que fizeram o que somos hoje.



    O discurso é nobre, embora unívoco, prejudicado por sua ausência de relevo ou contradições - imagéticas, inclusive. Para dizer que não existem contrapontos na imagem, uma cena se destoa positivamente: quando Fitarelli conversa com um italiano sobre o passado das ruas ao seu redor, testemunhamos a passagem de um bonde extremamente moderno, enquanto uma bandeira gay tremula no estabelecimento ao fundo. Neste raro instante, o passado se confronta com o presente, o som se confronta com a imagem, e o documentário fornece o tipo de atrito tão importante à reflexão cinematográfica.


    No terço final, com a entrada de uma professora idosa, Pra Ficar na História finalmente traz questionamentos a seu discurso benevolente. A personagem questiona o valor das peças, o fetichismo em conservar itens “mortos”, e interroga a falta de interesse das pessoas ao redor. O documentário ousa testar suas hipóteses e buscar limites práticos e ideológicos à mensagem da preservação. É uma pena que, neste ponto, já estamos muito perto do fim, quando as belíssimas luzes de pequenas lâmpadas, na parte externa do museu, celebram a existência do lugar e o esforço pessoal de uma família isolada num mar de esquecimento. O local ainda não estabelece uma comunicação, tempouco possui uma organização histórica, mas o filme se satisfaz com sua existência e suas boas intenções. Para ele, a preservação da História se faz pelos pequenos gestos de pessoas comuns.

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