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Coragem! As Muitas Vidas do Cardeal Paulo Evaristo Arns
Críticas AdoroCinema
1,5
Ruim
Coragem! As Muitas Vidas do Cardeal Paulo Evaristo Arns

A banalização do gênero

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Em entrevista ao AdoroCinema, o diretor de Corpo Delito atribuiu o boom do documentário dito híbrido no cinema brasileiro contemporâneo à busca de novas formas de conexão com o espectador. Repleta de limitações, a receita padrão do doc jornalístico encontra-se muito desgastada, disse Pedro RochaCoragem! As Muitas Vidas do Cardeal Paulo Evaristo Arns é o típico exemplar desse estilo já fora de moda que não oferece qualquer novidade ao público, cansado de histórias (às vezes até boas) em formatos desestimulantes.

O diretor e roteirista Ricardo Carvalho tem um personagem explorável em foco, mas dissipa seu aspecto mais notável – o enfrentamento aos militares na época da ditadura – num sem número de anedotas e capítulos quadrados que retratam seus principais trabalhos como líder religioso. Ele é o “Cardeal da Esperança”, o “Cardeal dos Operários”, o “Cardeal da Periferia”, o “Cardeal do Povo da Rua”, o “Cardeal dos Direitos Humanos”, e em todos é repetida a estrutura de depoimentos de admiradores, imagens de arquivo, fala do próprio Arns e um testemunho exemplar. Dos entrevistados o único que eventualmente escapa da reverência absoluta é Leonardo Boff, que traz o anticomunismo do biografado e chama a atenção para o “despertar” da Igreja Católica não simplesmente por defesa dos direitos humanos, mas sim ao se ver vítima de perseguição, atingida na pele por prisões arbitrárias.


Não seria bacana entender como um religioso totalmente contra comunistas acabou entrando para a história do Brasil como defensor dos torturados, aliado dos esquerdistas, inimigo dos militares e correspondente de Fidel Castro? O privilégio a tal parte da trajetória do cardeal ampliaria o valor factual da obra e abriria o público-alvo a não apenas católicos. O que vemos, no entanto, é uma biografia sem brilho tão obcecada em santificar Paulo Arns que mal ousa se aprofundar em questões que poderiam se tornar delicadas ou controversas. Covardia que foge à tão exaltada atitude destemida do retratado, incisivo até contra a Cúria Romana.

Coproduzido pela Globonews, Coragem! As Muitas Vidas do Cardeal Paulo Evaristo Arns é um manipulador especial de TV de qualidade baixa até para o meio a que é destinado. A narração de Paulo Betti lendo texto que simultaneamente aparece na tela até tem explicação, pois há aquela preocupação antiga com o fato do telespectador nem sempre estar atento com olhos e ouvidos, mas como justificar a ininterrupta trilha sonora sentimentaloide de Chico Adnet, que acompanha até relatos brutais de tortura? Ou as três versões musicais, no mínimo, da "Oração de São Francisco" que são usadas no filme? Ou ainda os trechos que mais parecem apresentação em PowerPoint?


Coragem. É o que têm em excesso os responsáveis por lançar este especial laudatório tão superficialmente televisivo e limitado nos cinemas como um filme longa-metragem.

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