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    Eu Não Sou uma Bruxa
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Eu Não Sou uma Bruxa

    Tradição ou repressão?

    por Barbara Demerov
    O fato da diretora Rungano Nyoni ter recebido um BAFTA logo em seu filme de estreia não surpreende após se assistir a Eu Não Sou uma Bruxa. A estrutura que se assemelha a um documentário também não é por acaso: para estudar e ter mais ideias para seu filme, Nyoni passou um mês em um acampamento real de bruxas em Ghana observando esta realidade bárbara que ainda perdura nos dias atuais. Portanto, o que se vê no filme pode até ser ficção por conta do elenco e sua narrativa (cujo roteiro também foi escrito pela diretora), mas ele nunca deixa de ser uma obra documental. O resultado, como esperado, é avassalador.

    A intenção da diretora é claramente a de mostrar ao espectador, através da história de uma menina de 9 anos chamada Shula (Maggie Mulubwa), algo que está realmente acontecendo no mundo: a prisão de mulheres consideradas bruxas por suas comunidades, a rejeição de todos de fora e o mercado que se estabelece nestes campos abertos onde vivem. Suas vidas são um livro aberto, mas não há muito o que contar. Para os turistas que vêm e vão, tudo o que podem fazer é observá-las por detrás das cercas enquanto as "bruxas" são enfileiradas e mantidas sentadas, apenas observando. O sofrimento de muitas mulheres de diferentes idades deu lugar para uma estagnação e uma certa aceitação de que, agora, elas não servem mais a si mesmas; somente ao governo.

    Eu Não Sou Uma Bruxa ganha uma potência emocionante por abordar a história de Shula desde seu "julgamento" (em que um homem a acusa de ser bruxa por conta de um sonho que tivera) até sua rotina no campo. A inocência e confusão estampadas no olhar de uma criança que nunca é tratada como tal é o motor da história, pois traz com mais brutalidade todas as regras que lhe são impostas. Além de viver presa a uma fita branca como todas as outras mulheres, Shula também trabalha como uma espécie de juíza bruxa em casos de roubo nas comunidades próximas – e quem lhe dá essa chance de sair do acampamento é o governador local.



    A crítica intrínseca à história é a de como superstições se saem mais fortes do que qualquer ato criminoso, além do fato de que quem está no poder ignora completamente a humanidade das julgadas. Shula se torna o rosto de inúmeros problemas reais que vão de negligência à exploração, até mesmo quando anda por locais diferentes e vai observando o mundo afora (inclusive na casa do governador junto de sua esposa, que também foi julgada como bruxa mas é mantida refém de forma mais discreta). Seu passado não nos é informado pois, na prática, pouco importa para aqueles que a cercam.

    A direção de arte e fotografia são uma extensão da grandeza da história e captam com uma beleza singular cada olhar, expressão e cenário em Zâmbia; ora com uma distância que nos chama para perto, ora com uma proximidade que incomoda, Nyoni filma com a sensibilidade de uma criança e a rigidez do colonialismo que a cerca. Eu Não Sou Uma Bruxa é uma reflexão ininterrupta de como a injustiça acontece em nome da justiça e da proteção. Ao mesmo tempo que se discute o papel da mulher em diversos âmbitos da sociedade, ainda há certos locais incapazes de receber tal fonte de esperança. Mas, pelo menos em sua cena final, o longa deixa claro que nada é impossível.
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