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    30 Anos Blues
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    30 Anos Blues

    Réquiem da juventude

    por Francisco Russo
    Com apenas dois filmes no currículo, é interessante notar que o cinema feito pela dupla Andradina AzevedoDida Andrade possui características muito bem estabelecidas. São eles quem dirigem, estrelam e roteirizam seus filmes, em um mix que traz uma proposta estética underground que tanto reflete seus momentos de vida quanto personalidade, seja pela vaidade ou pela visão de mundo. Para o bem e para o mal.


    Comparando com A Bruta Flor do Querer, seu filme de estreia, pode-se notar aqui uma coesão narrativa melhor elaborada, muito fundamentada em uma boa trilha sonora, no sentido de retratar as frustrações decorrentes dos planos feitos em meio à exaltação da juventude. Não há, entretanto, o objetivo de apontar fatos e culpados; tal percepção é muito mais sensorial, decorrente da insatisfação constante que ronda a vida dos personagens, seja no lado pessoal ou mesmo profissional. Trata-se, simplesmente, da percepção de que o sonho idealizado para si mesmo não deu certo.

    Neste aspecto, há vários diálogos que espelham não apenas tal fracasso como também a preocupação na forma como o mesmo é visto pela sociedade - "quando se tem 30 anos e mora com os pais parece que não deu certo na vida". Ao mesmo tempo, Andradina e Dida apontam (de novo) a metralhadora em direção à classe cinematográfica, chamando-a de "gado de editais" ao produzir "filmes sem paixão" e "filmes que não sejam para o público", bradando palavras de ordem contra uma patota que os exclui do meio. Mais underground impossível, ao se colocar na posição de vítima perante forças invisíveis mais poderosas e usar tal característica para compor o seu próprio cinema. Não por acaso, dentre os homenageados nos créditos finais está Jean-Luc Godard, mestre neste quesito.


    Tal intenção em cutucar é refletida também no machismo intrínseco aos personagens, seja pela forma como tratam as mulheres à sua volta ou mesmo por provocações intencionalmente inseridas no roteiro, como a citação a Último Tango em Paris, repleta de subtextos. Nota-se também que a única personagem feminina um pouco desenvolvida é Helena, em boa atuação da Julia Ianina pela tensão decorrente da indefinição momentânea. Ainda assim, os holofotes estão todos voltados para Andradina e Dida, em mais um capítulo de sua ode à vaidade tão característica. Por outro lado, é preciso também ressaltar que o desfecho surpreende pela desilusão intrínseca aos diretores/roteiristas/atores, no sentido de assumir o próprio fracasso - e usá-lo como cinema, claro.

    Diante de tais características, a dupla Andradina e Dida assume intencionalmente a posição de "ovelha negra" dentro do cinema brasileiro, seja ao apontar o dedo para a classe ou em temas sensíveis ao público em geral. Dentro de tal proposta, não há o menor temor em explorar a nudez alheia nem diálogos vulgares, mesmo que muitas vezes soem gratuitos, ou mesmo em se expôr ao ponto de personagem e intérprete serem confundidos com a mesma persona. No fim das contas, é este o objetivo. Ou, como o próprio filme cita, "usar a arte para obter respeito".

    Filme visto no 47º Festival de Gramado, em agosto de 2019.
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