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Mr. Jones
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
Mr. Jones

O último inocente

por

1933. Dentro de uma sala de reuniões, um jovem britânico tenta convencer um grupo de homens mais velhos de que Stalin pode representar um perigo à União Soviética. Todos riem dele, acusam-no de exagero. O homem insiste, sem sucesso. Não é difícil se identificar com Gareth Jones (James Norton) depois dessa apresentação. Décadas depois da Segunda Guerra Mundial, todos sabemos muito bem o que aconteceu, incluindo as violações de direitos humanos promovida por Stalin. É interessante perceber que Jones não é mostrado ao público inicialmente como jornalista, e sim como um visionário, um homem que ousou confrontar o sistema.


A estrutura é simples e funcional dentro dos códigos hollywoodianos: temos a jornada do herói que luta sozinho contra todos, o homem que arrisca a própria vida em nome da verdade, além de um sujeito puro, dotado de uma ingenuidade quase infantil. Enquanto a opinião pública demonstra conhecimento velado dos conchavos e atos de violência, Jones ainda acredita cegamente nas versões oficiais dadas pelos governos, até testemunhar o horror com seus próprios olhos. Mr. Jones busca funcionar como um tapa na cara do público, que se supõe tão ignorante em história e geopolítica quanto o corajoso jornalista do título.

 

Percebe-se que a diretora Agnieszka Holland não trabalha em um terreno de sutilezas. Os homens bons são profundamente bons, os malvados são perversos até não poder mais. O filme opera como as imagens de pulmões corroídos no verso de maços de cigarro, buscando conscientizar pelo choque. Chegando à Ucrânia, Jones encontra crianças passando fome, alimentando-se da carne dos mortos, enquanto cadáveres de mães e filhos abraçados encontram-se jogados na rua, ao olhar de todos. Cada cena grita horror e desumanidade, para não deixar dúvidas ao espectador sobre qual lado apoiar e qual lado repudiar.


 


Esta abordagem possui, ao menos, o mérito da clareza. A cineasta, acostumada aos filmes e séries sobre a ligação entre a política e a guerra, transparece a vocação pacifista e a necessidade de encontrar heróis que, talvez, motivem novas pessoas a reproduzir a iniciativa quixotesca contra o sistema. Por esta razão, não basta ter um protagonista historicamente relevante: Jones é transformado num homem atraente, de fortes instintos morais, que não bebe e ainda seduz a mocinha (Vanessa Kirby) quando tem a oportunidade. O protagonista é representado como figura ideal e modelo de masculinidade a que o público poderia aspirar – uma idealização grosseira, claro, mas como poderia ser diferente numa estrutura maniqueísta?

 

Apesar das padronizações, Holland esforça-se para superar a rigidez típica das reconstruções de época e das cinebiografias. A câmera se contorce em plongés e contra-plongés, as imagens permitem borrões nas cenas de movimento, câmeras lentas, montagens fragmentadas em exposições históricas e mesmo a inserção rápida de filmes mudos soviéticos, no melhor estilo Dziga Vertov. Embora estes recursos não soem propriamente inovadores ou contestadores, eles conseguem atenuar a previsibilidade do resultado e fornecer um ou outro momento espetacular, a exemplo do plano-sequência com James Norton correndo sobre a neve durante longos minutos.

 

Por fim, Mr. Jones revela-se moderadamente interessante ao ressaltar que o jornalista não apenas denunciou a miséria inaceitável sofrida pelo povo sob o governo stalinista, mas também viveu a fome e o frio na própria pele, argumentando portanto com conhecimento de causa. Sempre haverá um componente sádico, ou pelo menos ingênuo, nos filmes-choque que buscam fazer o espectador se sentir “exatamente como se estivesse no local”, com o máximo de cadáveres e sangue possível. A simulação do horror nunca será tão intrigante quanto a representação do mesmo. Ainda assim, enquanto veículo de informação que pretende ser, o projeto cumpre o seu papel.

 

Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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