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    A Ópera de Paris
    Críticas AdoroCinema
    4,5
    Ótimo
    A Ópera de Paris

    Os bastidores da produção artística

    por Bruno Carmelo

    O documentário do diretor Jean-Stéphane Bron parte do princípio que a Ópera de Paris é, antes de tudo, uma imagem. As primeiras cenas correspondem a uma reunião na qual a diretoria e o setor de marketing escolhem as palavras exatas para descrever seus próximos espetáculos. Este é o início de uma sucessão quase cômica de procedimentos, regras de conduta explícitas e implícitas, além de lições de etiqueta quando se lida com verba multimilionária, status internacional e obrigação de entregar quinze espetáculos anuais de alto nível, entre óperas e balés.


    A prioridade do filme não são as apresentações. O cineasta prefere compreender como funciona o local, quais são os esforços humanos necessários para manter uma estrutura deste porte, desde os funcionários da faxina e lavanderia até a diretoria, passando pelos dançarinos, músicos, professores, produtores e jovens aprendizes. Sem precisar dizer ao espectador que aquele local é importante, o documentário filma cenas de um touro sendo conduzido ao meio do palco para um balé, uma piscina sendo instalada para um espetáculo e dançarinos treinando exaustivamente os mínimos passos. O filme acredita na inteligência de seu espectador, na capacidade de compreender por si próprio a dimensão das óperas Garnier e Bastille em Paris.


     


    A imersão no local poderia gerar uma impressão de defesa apaixonada do local, próxima do vídeo institucional. No entanto, como bom discípulo de Frederick Wiseman – que também realizou seu próprio documentário sobre a Ópera – Bron retira os recursos de linguagem que costumam conduzir interpretações e sentimentos do espectador. Somem as cartelas explicativas, as narrações, os depoimentos para a câmera. O espectador observa de longe, na coxia e nos corredores, estando ao mesmo tempo próximo e distante daquele mundo. O cineasta faz questão de incluir tanto os momentos de louvor à instituição quanto às críticas feitas à gestão atual, às demissões e ameaças de greve devido aos baixos salários.

     

    A Ópera de Paris mantém um discurso coeso graças à excelente montagem, uma das melhores vistas em documentários em muito tempo. A edição da especialista em curtas-metragens Julie Léna cria um ritmo fluido e coeso, no qual as cenas conversam muito bem entre si, criando fricções importantes e desenvolvendo uma impressão de narrativa linear. A montagem elege dois personagens principais, um no alto escalão da empresa e outro representando o olhar novo, no caso, o experiente diretor e um jovem tenor russo, que acaba de ser escolhido para o elenco. O contraste entre ambos serve para costurar a história e sugerir uma renovação, uma espécie de circularidade entre as funções – ou seja, a noção de que a instituição é maior que suas partes, sobrevivendo às inúmeras mudanças internas.


     


    Voltamos então ao conceito da Ópera como personagem em si, um organismo autônomo. Cada pessoa retratada – incluindo o diretor musical, a bailarina que transpira demais, os membros do coral descontentes com seus acessórios – representa um órgão diferente, uma peça indispensável ao mecanismo vivo. Com ritmo agradável, Bron consegue conjugar a política e a estética, a captação de imagens em estilo observacional e a edição capaz de deixar claro o seu ponto de vista em relação àquele lugar. Além disso, cenas captadas nos bastidores são de rara beleza: o olhar ansioso do jovem tenor diante de seu ídolo e o palco vazio, sendo limpo em silêncio pelos faxineiros depois de um gigantesco espetáculo, são particularmente comoventes.

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