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    Uma Noite de 12 Anos
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Uma Noite de 12 Anos

    Avante!

    por Francisco Russo
    "Qual é a minha sentença?"
    "Você irá senti-la na pele!"


    Assim como em vários outros países latino-americanos, o Uruguai teve uma ditadura militar que trouxe marcas indeléveis, na democracia e na sociedade. Sob o aspecto da perseguição e dos traumas impostos, Uma Noite de 12 Anos poderia perfeitamente se passar na Argentina ou no Brasil, por exemplo, já que o modus operandi é sempre parecido nos governos que abusam da força para impôr alguma ordem. Entretanto, este não é propriamente um filme sobre os abusos cometidos, por mais que eles estejam escancarados a cada minuto. Este é um filme sobre não se entregar, por mais que não haja a menor perspectiva de mudança. A sobrevivência, por si só, já é uma vitória.

    Com tal filosofia em mente, o diretor Alvaro Brechner entrega um filme necessariamente duro, com sequências pesadas e dolorosas onde a tortura física e psicológica são apresentadas, mas que no fim das contas são apenas um meio para se atingir tal objetivo. Habilmente, Brechner "esconde" seu personagem mais conhecido: a história de José Mujica apenas ganha destaque já no meio do longa-metragem, justamente para que sua popularidade não ofusque a importância do ocorrido. É na vivência do trio formado por Mauricio Rosencof (Chino Darín), Eleuterio Huidobro (Alfonso Tort) e Mujica (Antonio de la Torre) que está a força do longa-metragem, pela batalha interna para não sucumbir à loucura ou mesmo ao suicídio.


    Diante de tamanha provação, Uma Noite de 12 Anos entrega breves pílulas de alívio que, por vezes, soam cômicas - não necessariamente em uma tentativa de ridicularizar o exército ou a ditadura, mas pela dificuldade em ter uma visão além das ordens dadas. O combate entre truculência e sensibilidade é constante, retratado especialmente a partir de Mauricio, o que amplia ainda mais o impacto das pequenas vitórias do dia a dia. É o caso da tocante conversa pelas paredes entre dois prisioneiros, tão contundente não só pela execução mas também pelo que representa ao espírito dos envolvidos.

    É desta forma que Uma Noite de 12 Anos sempre caminha. Doloroso na carne e na alma, por vezes arrastando seus personagens e o espectador rumo à lama, encampado em um idealismo que vai além do político para mergulhar, fundo, no humanitário. Os momentos em que estão prestes a sucumbir não são poucos, e o diretor jamais os esconde; pelo contrário, há uma sensibilidade ao retratá-los que torna os personagens ainda mais humanos. Gente como a gente, lutando pelo simples ato de viver.


    Extremamente bem dirigido, Uma Noite de 12 Anos conta com uma fotografia que capta bem o clima claustrofóbico inerente ao cárcere e uma edição meticulosa, especialmente na inserção dos flashbacks durante a narrativa. Com o trio protagonista absolutamente entregue aos personagens, não só pela necessária transformação física mas também pelo inevitável peso emocional decorrente desta história, o filme ainda merece destaque pela brilhante recriação da canção "The Sound of Silence", cuja força nas letras é realçada pela pujante versão de Silvia Pérez Cruz. De arrepiar.

    Entretanto, mais do que a excelência nas atuações e nos aspectos técnicos, Uma Noite de 12 Anos é um filme de significado imenso pelo que representa. Seu brilho não está nas agruras da ditadura ou mesmo na denúncia dos absurdos cometidos, mas na beleza das pequenas conquistas, tão valorizadas quanto raras pelas dificuldades enfrentadas em apenas viver. Um filme lindo, que diz muito sobre quem somos - para o bem e para o mal.
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    Comentários

    • lucas cantino
      E aqui em Santos , Campinas é tão falada por ter oportunidades e uma economia muito forte
    • Cido Marques
      Vcs de Santos tem sorte, pois aqui em Campinas que é mais populoso do que aí, não temos um cinema de arte.
    • lucas cantino
      Poxa,cido ,aqui em Santos ,tem um cineminha que desde os anos 2000,só passa filmes desse naipe e uma entrada com preço simbólico
    • lucas cantino
      Os momentos de entrosamento dos presos com os militares ,quando o sargento mostra o anel ,deixando claro que eles teria conquistado e casado com a garota ,são emocionantes
    • Afonso PECHE FILHO
      Emocionante, amargo e triste. Mostra como a maldade se aproxima das pessoas. Muito bom, no momento que a expectativa é que dias longos e amargos estão por vir, o filme é uma lição de resistência e ternura.
    • Cido Marques
      Obra prima, representante do Uruguai no Oscar, acabou de chegar na Netflix.
    • Cido Marques
      Aqui na minha só passa blockbuster, sorte que existe Netflix pra assistir obras primas como essa.
    • Leila O. Lobão
      Conta as batalhas individuais de cada um em seu ímpeto de sobreviver ao mesmo temo que enaltece a importância do homem social, aquele que necessita muito mais que comida e água, necessita comunicar-se, exprimir-se, usar palavras, fazer-se vivo pela escrita. O fundo político não ofusca esta obra já que fala do ser. Quantos sentimentos emergem do sofrimento e da lamúria. Fantástico.
    • Estrela
      Excelente filme! Bom para alertar aqueles que não entendem por que razão existem os direitos humanos...
    • Kel L
      Moro numa cidade que não tem salas de cinema cultural! Ansioso para assitir
    • Leonardo Moreira
      Numa cena incrível pelo real, durante uma discusao, Rosencof (Darín) conta pra Huidobro (Tort): “falar contigo é como falar com a parede”, e continuam movendo as peças de um xadrez imaginário, até que um disse Jaque Mate, inventando um triunfo que devolve o sorriso a ambos. Ali, no fundo da terra. “La noche de 12 años” nao é um filme triste e também nao apresenta eles como heróis nem como mártires. Sao três soledades resistindo à loucura.
    • Marcos
      Dos melhores filmes que já vi, até hoje. OBRA PRIMA, sim! Tudo é excepcional, além do inacreditável trabalho dos atores. .E a cereja do bolo, de fato é a canção The Sound of Silence, cuja força nas letras é realçada pela pujante versão de Silvia Pérez Cruz. De arrepiar. ,mesmo.
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