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    Guerra Fria
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Guerra Fria

    Encontros e desencontros

    por Bruno Carmelo

    Uma tela quadrada. Ao contrário de muitos filmes históricos que preferem a imensidão do widescreen para retratar os espaços, Cold War fecha sua imagem num formato apropriado ao retrato. A escolha se justifica: o mais importante neste drama serão as pessoas ao invés das localidades. Quando precisa apresentar cenários, o talentoso diretor Pawel Pawlikowski comprime os rostos no terço inferior do enquadramento e reserva a parte superior às planícies ou arranha-céus, gerando um efeito bastante singular.


    A maior qualidade deste projeto se encontra no agenciamento impecável de imagens. O cineasta evita o formalismo egocêntrico, do tipo que chama atenção apenas à destreza do autor, oferecendo imagens perfeitamente adequadas à descrição dos personagens, das ações, e da triste história de amor que se desenvolve. Tecnicamente, transparece uma inteligência ímpar e uma sensibilidade impressionante. Pawlikowski controla muito bem o efeito de um corte brusco na imagem após uma emoção forte, a suspensão do som depois da música, o efeito de uma frase triste enquanto enxergamos o rosto daquele que a escuta. O cineasta coordena direção de arte, montagem e fotografia de modo a obter os resultados mais expressivos possíveis.


     


    Cold War reúne, portanto, humanismo, história e poesia. A trama se inicia como um proto-documentário, seguindo músicos amadores da Polônia rural, até uma garota se destacar, ser escolhida para uma escola de artes, em seguida integrar uma companhia e encontrar, entre os professores, o homem de sua vida. Seguem-se os principais eventos que abalaram a macropolítica logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. O romance, que se desenvolve ao longo de 15 anos, poderia ocupar uma narrativa extensa. Felizmente, o diretor fornece apenas as informações indispensáveis, evitando tanto as catarses quanto o didatismo, de modo a comprimir o filme em modestos 84 minutos.

     

    Assim, os dois amantes se separam e se reúnem uma dezena de vezes na história, sem detalhes sobre as circunstâncias exatas do distanciamento. Ao invés de relações de causa e consequência, Pawel Pawlikowski se interessa à permanência dos sentimentos num mundo em transformação. A cada vez que Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) se reencontram em Varsóvia, Paris ou Berlim, eles estão com novos namorados, novos trabalhos, mas o amor se mantém. A frustração das sucessivas interrupções se torna um tema em si, um objetivo a atingir: esta é uma história feita de meios encontros, de finais felizes frustrados no último minuto.


     


    A personalidade do casal favorece os conflitos e, portanto, as separações: ela é uma mulher extrovertida, de gestos brutos e sexualidade livre, numa composição magnética de Kulig. Ele possui uma expressão melancólica, a fala tímida, construídas por Kot em tom paterno. Enquanto ela dança e ele toca piano, a História se desenrola como pano de fundo, incluindo a cooptação das artes pelo regime stalinista, a proibição de cruzar fronteiras, a precariedade financeira, a ameaça de conflito armado. A cada novo letreiro indicando cidade e ano em que se encontram, Zula e Wiktor se deterioraram diante dos olhos do espectador. Eles estão cada vez mais cansados, machucados, magros, velhos. Bela ideia de retratar a guerra pelos efeitos psicológicos nos indivíduos, ao invés das atitudes dos países envolvidos.

     

    É impressionante como a representação do sentimento pode ser muito mais potente na sugestão do que nas juras de amor eterno. O festival de Cannes apresentou na véspera deste filme o drama francês Sorry Angel, no qual os personagens verbalizam seus sentimentos a cada cinco minutos. Zimna Wojna (no original) prefere o intimismo, uma versão do amor palpável, sujeito a altos e baixos, tanto ao êxtase quanto ao tédio. O casal deste filme se comunica melhor quando fica em silêncio, quando se admira com certa melancolia, mas também admiração. O cinema é muito mais belo quando representa o amor ao invés de dizê-lo.

     

    Filme visto no 71º Festival Internacional de Cannes, em 2018.

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    Comentários

    • Sophia Izaias
      Concordo com a moça ali embaixo em citar o Kundera. Não li a Insustentável Leveza do Ser, mas li A Brincadeira. São exatamente as mesmas coisas: danças e canções folclóricas, crítica ao stalinismo, uma paixão e, visualmente, a menção aos campos de concentração na Polônia. Até mesmo o Wiktor se parece, na minha cabeça, com o Ludvik. Mas infelizmente o filme não me tocou.
    • Rita Cytryn
      Magnífico comentário de Bruno Carmelo. O único acréscimo que gostaria de comentar é acerca trilha sonora: bela e comovente. A música alinhava a história em todos seus momentos. Cada mudança nos faz perceber o contexto dramático da vida de duas pessoas vivendo o impacto do pós guerra, esfaceladas pelo peso do stalinismo e pela impossibilidade de viver presos pela cortina de ferro. Não deixa de ser um alerta aos de agora... Para mim, em particular, o filme evoca meu próprio drama familiar. Meu pai era polonês e imigrou antes da perseguição na Polônia chegar ao ápice. As imagens do trouxeram de volta as questões do nosso passado, as perdas que os regimes opressivos impoem às pessoas.
    • Fabrícia Leal
      Plagio da Insustentável Leveza do Ser
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