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Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos

O sertão canta Elvis

por Bruno Carmelo

O documentário traz uma surpresa considerável ao espectador. Primeiro, por não se tratar de um projeto sobre a Super OARA, banda tradicional do sertão pernambucano. Jamais conhecemos a origem do grupo, seus fundadores, sua evolução. Segundo, porque a OARA sequer constitui o personagem principal do filme, que elege como protagonistas os burros que perambulam pelas ruas de Arcoverde, a 250km de Recife. A música produzida pela orquestra é apenas uma entre os sons que atravessam a trama, a exemplo de uma canção de Edith Piaf entoada por uma senhora no salão de cabeleireiro, ou os hits eletrônicos dos jovens numa casa noturna.


O filme encontra seu verdadeiro foco na riqueza sonora do sertão nordestino. Os esperados barulhos dos jumentos, das galinhas e do folclore estão presentes, mas se misturam com estilos distintos, seja diegeticamente - pelas escolhas de músicas dos arcoverdenses -, seja pelo trabalho da montagem. O início, sobrepondo a pacífica cidade rural à clássica “New York, New York”, resume a ironia entre o industrial e o artesanal, o moderno e o arcaico. A apreciação pelos ritmos estrangeiros é desprovida de julgamento, sendo retratada como parte integrante da cultura local. Felizmente, o diretor Sérgio Oliveira foge aos depoimentos, letreiros e narrações. Em se tratando de um filme sobre o som, a escolha por um registro unicamente sensorial se revela a mais poética e adequada.



A montagem constitui uma atração à parte. Para além dos belos enquadramentos, com fotografia bem cuidada e olhar terno às pequenas cenas do cotidiano, a montagem produz sentidos interessantes pela justaposição audiovisual: os tratores de uma construção são combinados com o barulho dos brinquedos de plástico das crianças, a cantoria das senhoras se soma ao ruído das galinhas numa composição única, o retrato dos animais vivos é colado aos restos de carne podre jogada às ruas. As imagens são articuladas de modo que cada junção produza um novo significado e discurso, um estímulo inesperado ao espectador. A monotonia da vida arcoverdense jamais se traduz em monotonia ao público.


De certo modo, a sugestão mais interessante do projeto se encontra na ideia de que a orquestra não existe apenas dentro do galpão da OARA, nem dentro do cinema onde ensaiam. A cidade inteira é transformada numa orquestra, e todos os sons fazem parte desta composição. A função social da arte é explorada de maneira orgânica, por se tornar indissociável da vida dos habitantes. Assim, a produção musical extrapola os espaços oficiais (casas de concerto, shows) para invadir toda a paisagem. A cena final, espécie de prelúdio para uma orquestra sobre as montanhas, condensa esta ideia com um potente lirismo.



Talvez se possa questionar a insistência nas imagens dos burros, ou então a montagem de um clipe em estilo hip hop com o barulho dos bichos. Mas a montagem não tem medo de experimentar, e nem o próprio filme. Entre tantos talking heads burocráticos que tomam os nossos cinemas, é um prazer nos deparar com um formato tão inventivo, que confia na capacidade de compreensão do espectador e não resume seu objeto de estudo a uma sucessão de fatos, dados e versões oficiais. Arcoverde, a OARA e, por extensão, o sertão nordestino, são representados por suas texturas, seus sons naturais e artísticos, numa sinestesia muito bem orquestrada por Oliveira, Renata Pinheiro e Eva Randolph.

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