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    A Luz no Fim do Mundo
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    A Luz no Fim do Mundo

    Proteger as mulheres

    por Bruno Carmelo

    É preciso coragem para começar seu primeiro filme como diretor interpretando um homem que não sabe contar histórias. Na longuíssima cena inicial de Light of My LifeCasey Affleck interpreta um pai com dificuldades para inventar uma história original à filha Rag (Anna Pniowsky), deitados dentro de uma tenda. A garota, muito esperta, capta as referências evidentes e critica o pastiche de outras histórias existentes. Mesmo assim, o homem insiste durante mais de dez minutos. Com alguma dificuldade, conclui sua narrativa e agrada à filha.


    A mesma interação e senso de persistência marcam toda a projeção. Aos poucos, descobrimos que o pai e Rag vivem num mundo pós-apocalíptico após um vírus eliminar quase todas as mulheres do planeta. Por isso, a menina tem os cabelos cortados e é apresentada pelo pai a eventuais passantes como se fosse um menino. Affleck não tem interesse em explicar as origens ou circunstâncias da crise, tampouco investiga os motivos pelos quais a garota foi milagrosamente poupada. Encontramo-nos nove anos depois da catástrofe mundial, e todos já assimilaram os fatos. Portanto, não há choque ou comoção.

     

    O filme conduz uma premissa típica da ficção científica com as ferramentas do drama, retirando os prazeres simples do gênero como os cientificismos e o senso de aventura. Não se sabe ao certo o que os homens fariam com Rag se a encontrassem – estuprariam, sequestrariam, submeteriam a experiências científicas? A resposta fica a cargo de cada espectador. O diretor demonstra tamanho desapego ao suspense que sequer oferece algum perigo real ao pai e à filha: a dupla parte em fuga sempre que avista qualquer ser humano, de fato que não existe prova real da busca pela garota em especial. Tudo poderia significar uma paranoia do pai, um delírio de superproteção e controle.


     


    Ao evitar o ritmo acelerado e perigos típicos, Light of My Life concentra-se principalmente nos diálogos. Fala-se muito neste filme, pautado por longas sequências de perguntas e respostas. A garota lança questionamentos que vão da filosofia (“Qual é a diferença entre moral e ética?”) às dúvidas comuns sobre a puberdade. Por mais insana ou insistente que possa ser a pergunta, ela recebe uma resposta detalhada e paciente na voz do pai caridoso, interpretado com a habitual malemolência de Affleck. Nestas trocas, busca demonstrar seu respeito às mulheres, a todas as etnias, e criticar a masculinidade tóxica. É engraçado Affleck colocar a si mesmo como herói progressista de um drama de pretensão feminista.

     

    Apesar de duas boas atuações centrais, a sequência de diálogos é filmada de maneira muito semelhante: plongés para quando conversam lado a lado na tenda, imagens abertas para inserir ambos na natureza quando buscam novo abrigo. Para representar o cansaço dos protagonistas, oferece-se a repetição de ações ao espectador, o que não deixa de tornar a narrativa um tanto arrastada. Quando uma cena de violência irrompe na trama, percebemos pela primeira vez o talento para composição e ritmo, que Affleck não havia demonstrado até então.

     

    É curioso imaginar o que ele teria feito com uma produção de gênero típica. Mas o cineasta está mais preocupado em atar as linhas soltas no final, valorizar as suas gags (a história inicial, a noção de “aventura amorosa”) e utilizar o pós-apocalipse como desculpa para forçar um pai descuidado a se tornar herói da filha num mundo de lobos vorazes. O resultado é instigante, competente, ainda que verborrágico e um tanto negligente em relação a suas personagens femininas.

     

    Filme visto no 69º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2019.

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