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Uma Escala em Paris
Críticas AdoroCinema
2,0
Fraco
Uma Escala em Paris

A mulher na comédia romântica

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Em 2018, o cinema tem cada vez mais dificuldade de sustentar a imagem clássica da mulher na comédia romântica. Trata-se da figura ingênua, atrapalhada e um pouco infantil da mulher que gosta dos homens errados, depois chora na frente da televisão quando o relacionamento termina, até reatar com o moço ou encontrar outro, igualmente belo, para ser feliz novamente. A mulher da comédia romântica é definida pela necessidade de ter um relacionamento. Ela jamais poderia ser feliz sozinha.


Gina (Lindsay Burdge) corresponde a essas personagens. Mistura de Bridget Jones e Amélie Poulain, ela começa o filme perdendo o namorado obsessivo. Mas tudo bem, porque o destino coloca outro homem idêntico em sua vida: Jérôme (Damien Bonnard), um garçom francês malandro, que jamais demonstra o menor afeto por nossa heroína. Mesmo assim, Gina salta ao pescoço dele, oferece sexo o tempo inteiro (“Quer que eu faça de novo?”, ela pergunta após uma felação) e cria uma imagem impossível de que viverão juntos para sempre. Talvez este comportamento seja decorrente do luto do relacionamento anterior, mas nunca vemos Gina sofrendo: ela é movida pelo desespero de não ficar sozinha.


 


Assim, Uma Escala em Paris se diverte ao criar uma figura anacrônica, no cruzamento entre loucura e ingenuidade. Gina não possui objetivos na vida, nem amigos que realmente a conheçam. Ela está disposta a abandonar tudo pelo primeiro homem que passar, algo que o roteiro vende como uma ideia charmosa. A comissária de bordo é assediada e humilhada em mais de uma ocasião, a exemplo de novo emprego de hostess sexy, adotado por ela para ficar mais próxima do ser amado. O roteiro lhe apresenta duas possibilidades de futuro: o lesbianismo (várias mulheres se oferecem a ela) ou a prostituição, pelo trabalho no novo bar. Gina está prestes a entregar o seu corpo por amor, assim como faz questão de pegar a conjuntivite do ser amado, em pequeno gesto de entrega.

 

As escolhas estéticas do diretor Nathan Silver fazem questão de mostrar que esta é uma fábula divertida, colorida, inconsequente. As imagens trocam de cores a cada instante, a fotografia leitosa tem aparência de sonho, o enquadramento em 2:35/1, bastante retangular, garante que vejamos apenas o rosto da personagem, em detrimento dos espaços. A narração de Anjelica Huston remete ao tom dos contos, e mesmo a música nos lembra de um universo além do realismo. Mas não há crítica, distanciamento. O cineasta acredita estar de fato desenvolvendo uma história leve e alegre envolvendo suicídios e mulheres objetificadas. Os atores fazem o possível: Lindsay Burdge arregala os olhos e constrói uma voz doce, buscando uma mistura de ternura e obstinação, enquanto Damien BonnardEsther Garrel conferem boa naturalidade aos diálogos, algo típico da escola mais naturalista francesa.


 


Mesmo assim, o filme termina por oferecer um retrato feminino contraproducente, típico do olhar masculino que vê nas mulheres apaixonadas uma figura engraçada, exótica, da qual se ri com certa condescendência. Não enxergamos o mundo pelos olhos de Gina: o espectador fica à distância, julgando suas atitudes. O projeto troca a empatia por uma espécie de fetiche do amor romântico no século XXI, no qual garotas sonhadoras são sacrificadas ao prazer dos olhos do espectador. Esta é uma boa experiência para o público lembrar que nem toda história liderada por personagens femininas defende a autonomia das mulheres, e que nem todo amor precisa ser sinônimo de abandono da razão.

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