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    Rainhas do Crime
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Rainhas do Crime

    A máfia subvertida

    por Francisco Russo
    A canção de abertura de Rainhas do Crime não poderia ser mais apropriada: "It's a man's man's man's world", clássico de James Brown, não apenas retrata a realidade existente na Nova York dos anos 1970 como, também, prenuncia o quão difícil será a jornada das três personagens principais deste longa-metragem, que precisam assumir as rédeas da vida ao estabelecer sua própria célula mafiosa - o que, é claro, não agrada nem um pouco os demais núcleos, todos comandados por homens. Tamanho contraste é o que há de mais valioso neste longa de estreia da diretora Andrea Berloff, não só pela inversão de valores mas, especialmente, pelo panorama social retratado.


    Para tanto, Berloff - que também assina o roteiro - habilmente vai além do material que possuía em mãos: da graphic novel "The Kitchen", criada pela dupla Ollie Masters e Ming Doyl, pode-se dizer que pouco foi aproveitado além do conceito inicial e alguns coadjuvantes, ainda assim realocados nesta narrativa. Se nos quadrinhos o trio formado por Kathy, Ruby e Claire por vezes soa raso e até mal aproveitado, especialmente Claire, aqui cada uma delas ganha dimensões bem mais aprofundadas, a partir de uma contextualização que ressalta os abusos sofridos pela lógica cotidiana de que "mulher serve apenas para fazer bebês" - palavras do filme, é bom ressaltar. Entalado na garganta, o grito de liberdade veio na única forma possível diante da realidade por elas conhecida: através da violência.

    Neste aspecto, a diretora/roteirista bebe diretamente dos filmes de Scorsese para estabelecer uma estética das ruas facilmente reconhecível por quem já assistiu Taxi DriverCassino ou Os Bons Companheiros, seja pela fotografia suja ou mesmo pela crueza dos atos retratados. Ainda assim, por mais que haja um grau considerável de violência no filme, Berloff às vezes poupa o público de momentos mais explícitos - leia-se sangrentos -, usando enquadramentos de câmera mais para insinuar do que mostrar, o que contrasta com a proposta realista do longa-metragem. O apuro no figurino e em penteados, além dos variados carros antigos em cena, demonstram um bem-vindo zelo na representação de época, que auxilia (bastante) na veracidade em torno da história apresentada.


    Entretanto, por mais que haja tamanho capricho no entorno e boas atuações das três protagonistas - especialmente Melissa McCarthy, graças à insegurança no olhar -, Rainhas do Crime peca por uma narrativa extremamente didática e esquemática, que por vezes descamba para o desleixo. Isto acontece especialmente na sequência derradeira de Little Jackie (Myk Watford, vilanesco), tão súbita quanto mal fotografada, ao ponto de mal ser possível identificar o personagem antes de ser nomeado. A aparição de Gabriel (Domhnall Gleeson, correto) também traz ares de ex-machina, salvador da pátria que surge do nada, por mais que sua dinâmica com Elizabeth Moss seja interessante.

    Por outro lado, mesmo com tais problemas de estruturação, é importante ressaltar a proeza de Berloff em melhorar o material original, ao ponto não só de trazer mais substância às personagens como, também, enfoques inexistentes na graphic novel. Um deles é a contextualização dos negros em meio à guerra das máfias, a partir da boa escalação de Tiffany Raddish, outro é através da ótima coadjuvante interpretada por Margo Martindale, homenagem explícita a O Poderoso Chefão - com o sexo invertido, é claro.


    Com uma trilha sonora recheada de ícones dos anos 1970, Rainhas do Crime é um filme mais interessante pelo que propõe a ser do que propriamente pelo que entrega. O melhor exemplo talvez seja seu desfecho, surpreendente pela fuga do clichê mas ao mesmo tempo mal construído, como se o que acontece fosse mais relevante do que o como acontece. Ainda assim, vale uma conferida pela raridade do proposto, seja pela conjuntura social de um núcleo mafioso comandado por mulheres ou mesmo pelo fato que um filme deste subgênero seja dirigido por uma mulher, o que traz maior propriedade à história em questão.
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