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    Trama Fantasma
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Trama Fantasma

    Relacionamentos tóxicos

    por Bruno Carmelo

    Apesar das aparências, esta não é uma história de amor. A frase “Eu te amo” é proferida algumas vezes, discretamente, em tom de ironia ou desespero. Mas é difícil saber se o estilista Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) algum dia amou a sua musa, Alma (Vicky Krieps), e se foi correspondido. Os sentimentos entre eles são complexos, envolvendo ciúme, inveja, admiração, ódio, posse, provocação, carência, companheirismo. O amor, caso apareça em algum momento, seria a menor das coisas. Trama Fantasma é um raro filme sobre o potencial destrutivo dos relacionamentos amorosos.


    Alma não é a primeira musa inspiradora de Reynolds, e nem seria a última. O homem poderoso, acostumado a ter dezenas de funcionários, familiares e mulheres bajulando-o diariamente, escolhe Alma como quem compra um novo vaso para a sala de estar. Ela fica surpresa quando descobre que seu corpo comum se presta aos vestidos de luxo confeccionados por ele. “Você não tem seios”, ele afirma no primeiro encontro, com brutalidade. “Mas eu posso te dar seios, se eu quiser”, completa. Reynolds gosta de um desafio. Ele também gosta de possuir, sejam coisas ou pessoas - o que, no caso dele, não tem muita diferença.


     


    O melhor aspecto do roteiro de Paul Thomas Anderson é confrontar o homem branco, heterossexual e privilegiado a uma mulher igualmente forte. Alma não está disposta a acatar todas as ordens do macho caprichoso. Aos poucos, começa a testar os limites da autoridade masculina, impondo-se e provocando uma verdadeira revolução dentro do patriarcado rígido da casa de costura Woodcock. O filme alimenta uma guerra progressiva e silenciosa, um ataque violento disfarçado pela elegância das roupas, das palavras. Por trás de tanta cortesia, as pessoas se detestam.

     

    De certo modo, o egocentrismo de Reynolds faz do personagem um parente próximo do escritor manipulador (Javier Bardem) de Mãe!, também acostumado a ter suas musas apenas para servi-lo. Mas enquanto Darren Aronofsky transformava a relação entre ambos num circo grotesco, Paul Thomas Anderson prefere abordar a hipocrisia, os subentendidos. Ou seja, ele se foca no contraste entre o fundo e a forma, a aparência e a essência. Quanto mais tempo Reynolds e Alma passam juntos, menos saudável se torna a relação. A convivência com a autoritária irmã do estilista, Cyril (Lesley Manville), funciona na mesma chave da desaprovação mútua e tácita. O trio formado por Day-Lewis, Krieps e Manville se equilibra em atuações impecáveis, oscilando entre a gentileza e a agressividade, às vezes numa mesma cena.


     


    Este desfile sobre a hipocrisia dos ricos torna-se pungente graças às escolhas de direção. Acostumado a fotografar os espaços, desta vez o cineasta privilegia as pessoas, os rostos. Em planos muito próximos, capta cada ruga, cada olhar de desaprovação, cada pele descascada nos dedos segurando agulhas. A câmera investiga os personagens como se quisesse entrar neles, conhecê-los melhor, saber o que de fato pensam por trás dos sorrisos educados. Uma escolha é particularmente interessante: alguns atores olham diretamente para a câmera, mas não quebram a quarta parede, nem se comunicam com o espectador. O olhar é vazio, atravessa a câmera, num recurso glacial condizente com a comunicação retórica entre os personagens.

     

    Ao mesmo tempo, temos um cinema clássico, adequado à época em que se passa e também à descrição das castas britânicas. A belíssima fotografia em 35mm oferece uma textura que o cinema perdeu recentemente, mas já soa “antiga” em tempos do cinema digital. A iluminação se encarrega de representar o peso e a materialidade de cada tecido, algo acentuado pelo trabalho preciso de som. A montagem permite que as cenas tenham tempo para o silêncio, a contemplação, o desconforto, como a indústria americana produz cada vez menos. Na disputa pelo Oscar 2018, este talvez seja o filme mais elegante, intelectual, e também o mais afastado da linguagem pop que contaminou até as produções indie – vide Três Anúncios Para um CrimeA Forma da Água etc.

     

    Para completar, a trilha sonora com composições instrumentais ao piano marca a transição entre a maioria das cenas, correspondendo ao ambiente erudito e codificado no qual vivem os personagens. Mesmo assim, o projeto rompe com toda idealização: do luxo, da felicidade, do amor. Existe uma “atmosfera de morte discreta” nesta casa, se queixa Reynolds. Esta sensação poderia ser aplicada ao resultado como um todo. Paul Thomas Anderson cria um deslumbrante filme de fantasmas, povoado por figuras efêmeras, ressentidas, amarguradas. Isto certamente não é amor. Talvez seja o seu avesso.

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    Comentários

    • msuelymoreira
      Tudo mais que perfeito neste filme super especial, Nota mil. E parabéns a Bruno Carmelo pela crítica à altura. Acho que ninguém teria feito melhor, palavra por palavra. AMEI!!!.
    • Hen_Par
      Putz, que sono...
    • Guilherme Zacura Filho
      Preconceituoso e com um pé atrás, você jamais de dará a oportunidade de aprender e evoluir. Só para seu conhecimento, a crítica que você repudiou, de arrancada é quase melhor que o filme. As demais críticas deixarão isto patente.
    • Luciano Prado
      Esse tipo de filme se a pessoa não se transportar para dentro da tela ela não entende. Ótimas atuações e fotografia.
    • Lorenzo
      filme e crítica excelentes
    • Lorenzo
      mas eh a vdd filho, o personagem de day-lewis eh tudo isso. engraçado como alguns adjetivos afetam a normatividade. pelo seu argumento, percebo que você parou de ler e se atualizar a muito tempo.
    • Pablo HP
      Apoiada.
    • Pablo HP
      Dois preconceituosos.
    • Pablo HP
      Excelente filme merecedor de diversos óscares por vários motivos mas principalmente pela estória fascinante e envolvente. Particularmente me senti dentro do filme por ter passado por algo parecido em meu casamento. Um relacionamento totalmente tóxico que só trouxe guerras e destruição. Deviam fazer mais filmes expondo a realidade ao invés de fazerem apenas filmes de ficção como os da Marvel, que só cria adolescente que acham que tem super poderes.
    • hect
      melhora sim!
    • Hec
      Um critico que propõe saber o que o amor seja desde a primeira frase não entende nada de arte nem de amor: uma das coisas mais exploradas em arte e que não cansamos de indagar o que seja e que não há nada de simples em entender. O filme é lindo, sobre uma forma de amor (como tantas outras), sobre a complexidade do humano, e as vezes sobre o nosso prazer como espectador em assistir um jogo de poder e emoções que são maiores que nós...
    • Débora Fernandes
      Pensei a mesma coisa...
    • Hen_Par
      Falou em homem branco, heterossexual e privilegiado, já parei de ler.Mania de levar a lacração a tudo.
    • Isabele
      Filme de nível e capacidade p público de elevado gosto.
    • paulo antunes
      Uma preciosidade este Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson.Um deleite as interpretações, com supremo destaque para Daniel Day-Lewis e seu complexo e enigmático personagem, o estilista Reynolds Woodcock. Mas ele não figura sozinho. A amante, Alma (Vicky Krieps) e a irmã Cyril (Lesley Manville), em atuações inspiradas e carismáticas compõem o drama em nuances e força impressionantes.As imagens, ou melhor, a textura das imagens (filmado em 35 mm), a fotografia, os figurinos (Oscar com merecimento total), a montagem/edição (ágil, compacta, se atém ao necessário) e a trilha sonora, tudo isso compõe um filme belo, mas que não nos distrai do essencial que é conhecer, conviver com esses personagens, complexos e problemáticos da trama.Um filme para pensar, com a vantagem de ser inspirador nas imagens e ritmo, um sopro de beleza para o deleite do espectador.
    • Franklim A.
      Não é um estilo de filme que me agrada, achei longo e entediante.
    • samuelramos
      E por que não 5 estrelas?
    • elias nasser
      excelente crítica!
    • Izidoro B.
      Encantador!
    • Iury Rezende
      Excelente trabalho de um dos diretores mais refinados de Hollywood. A composição das cenas, montagem, fotografia e a ótima utilização da trilha sonora, marca de seu estilo em filmes anteriores, realmente o coloca em diferencial nas produções atuais. Os personagens dos filmes de Paul Thomas Anderson possuem características que afastam a identificação do público em geral. Adam Sandler, Tom Cruise, Mark Wahlberg, Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman encanaram personagens estranhos, paroxistas e esquizoides, assim como a do estilista interpretado por Daniel Day-Lewis. Thomas se aproxima destes personagens com um distanciamento cínico e por alguns momentos ternos, sem nunca cair no sentimentalismo ou abordagem simplista. Seu bisturi/câmera disseca e humaniza estes personagens, que nos remetem também ao universo cinematográfico de Kubrick. Grande Paul Tomas Anderson.
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