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Entardecer
Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Entardecer

Testemunha da História

por Bruno Carmelo

Durante os 141 minutos deste drama húngaro, a tela é preenchida pelo rosto e pela nuca de Irisz Leiter, interpretada pela atriz Juli Jakab. Ela perambula por dezenas de prédios, ruas e casarões de Budapeste, enquanto a câmera a acompanha de perto, passo a passo. “O que você quer?” e “Quem é você?” são as perguntas mais frequentes disparadas à protagonista, que simplesmente ignora seus interlocutores e segue em frente. Mais tarde ela se tornará uma personagem com passado e motivações definidas, no entanto, durante uma parte significativa da narrativa, ela constitui um corpo errante, em perpétuo movimento, sem que o espectador conheça seu destino.

 

A escolha do diretor László Nemes é arriscada por confiar inteiramente na atuação de Jakab e estimar que o rosto impassível da atriz constitua um elemento instigante o suficiente para o espectador permanecer interessado durante todo o projeto. Por um lado, o desenvolvimento da tensão funciona devido à assimetria de informações. O olhar do espectador se confunde com aquele de Irisz, que desconhece as razões da hostilidade local. Todos os moradores conhecem os segredos sobre o passado da família dela, menos a própria garota e o espectador, que juntam cacos de informação para montar uma trajetória coesa. Por outro lado, Entardecer se diverte em esticar esta descoberta, distribuída em doses homeopáticas, até atingir um ritmo lânguido, vagaroso, tão fluido (pela movimentação constante) quanto inerte (pela ausência de reviravoltas).


 


A jovem sofre com ameaças de estupro e morte, mas uma terceira pessoa sempre aparece na hora exata para salvá-la. Depois, homens poderosos ordenam que ela deixe a cidade, apenas para serem ignoradas e Irisz voltar ao centro da ação. Existe um caráter voluntariamente repetitivo na trama, importante para compreendermos o temperamento tão obstinado quanto ingênuo da protagonista. Ela representa ao mesmo tempo a heroína e a mártir, uma mulher corajosa e um tanto frágil na maneira como é rechaçada. Esta linha tênue se dilui na atuação enigmática de Juli Jakab, cujo olhar vidrado e rosto apático poderiam esconder qualquer motivação da vingança ao tédio. Talvez esta seja uma atuação genial ou insípida, a gosto do espectador, por sua capacidade de sugerir tantas construções que resulta numa espécie de tela em branco.

 

Esteticamente, Nemes reproduz as principais ferramentas que garantiram o sucesso do monumental Filho de Saul (2015): a câmera asfixiante no rosto, os longos planos-sequência, a profundidade de campo limitada ocultando os horrores da História. No entanto, estas escolhas soavam mais coerentes no filme anterior, que sugeria pelo som fora de quadro os horrores do Holocausto e as restrições de um personagem confinado. Desta vez, Irisz se desloca quase sem rumo, e apesar do formato de tela mais retangular, a construção da asfixia soa menos pertinente. Nos dois casos, a ação macropolítica ocorre no pano de fundo: Saul e Irisz são testemunhas de momentos-chave da História, sem possuírem controle dos fatos acontecendo logo ao lado. Ambos se concentram em conflitos familiares – o enterro de um filho para o condenado aos campos de concentração, a busca pelo irmão assassino, no caso da mulher da virada do século -, enfrentando as batalhas do século XX à revelia.


 


Nemes deixa o fogo literalmente queimar no fundo do quadro, desfocado, enquanto a jovem corre por todos os lados, tentando entender o que se passa. O espectador é jogado neste turbilhão, buscando entender o nome de duas dezenas de personagens e suas motivações específicas para agredirem ou ajudarem a andarilha. Tecnicamente, o resultado é bastante competente, tanto na direção de fotografia quanto na reconstrução do Império austro-húngaro da década 1910. A intenção de debater relações de gênero, da agressividade masculina à frágil emancipação feminina da época, também serve de contraponto aos nossos tempos. No entanto, o drama chama mais atenção por seu ostensivo recurso formal do que pela discussão humana. A elegância do conjunto serve como força e limitação, garantindo um resultado tão polido quanto frio.

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