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Praça Pública

Comédia de costumes em tempos de valores polarizados

por João Vítor Figueira

Poucos países representam tão bem a noção de conflito de classes na Idade Contemporânea como a França -- que historicamente inaugura o período com a queda da Bastilha. Em Praça Pública, que ironicamente e não por acaso se passa ao longo de uma tarde e noite em um ambiente privado, diferentes classes e ideias de sociedade se chocam, não de forma revolucionária, mas através de uma comédia de costumes que vagamente aponta para os preceitos basilares do gênero no cinema francês estabelecidos em A Grande Ilusão (1937).

Com décadas de experiência no trânsito entre direção, atuação e roteiro, Agnès Jaoui acumula as três funções neste projeto. No enredo, são explorados de maneira leve e ágil (as vezes ágil até demais) contrastes entre burgueses e a classe trabalhadora, pais e filhos, a moral prática e a idealista, campo e cidade, juventude e velhice, celebridades e anônimos. Não é a primeira vez que Jaoui faz uma produção do tipo. O Gosto dos Outros (2000), por exemplo, estreia da artista como realizadora, abordou dinâmicas similares (até com mais eficiência, diga-se de passagem).



A história se concentra na figura de Castro (Jean-Pierre Bacri), um apresentador de TV que participa do open house de sua produtora, Nathalie (Léa Drucker), que se mudou para uma casa de campo "a 35 minutos de Paris" apenas, como repete a anfitriã. Enquanto tenta manter a garçonete Samantha (Sarah Suco) trabalhando e não deslumbrada com as celebridades presentes na festa, Nathalie também recebe sua irmã idealista, Hélène (Jaoui), que é a ex-esposa de Castro e deseja levar conteúdos politicamente relevantes para o fútil programa de seu antigo esposo. A lista de convidados conta ainda com a filha de Castro e Hélène, Nina (Nina Meurisse), que acabou de publicar um livro com personagens polêmicos inspirados em sua vida pessoal, os atuais cônjuges do ex-casal (Héléna Noguerra e Eric Viellard), o esposo imigrante e levemente xenófobo de Nathalie (Miglen Mirtchev) e o narcisista jovem youtuber Biggistar (Yvick Letexier).

Em mais uma parceria de roteiro entre Jaoui e Bacri, que também foram casados na vida real, algo que adiciona uma camada de ironia aos seus papéis no filme, o longa-metragem traz um elenco que parece se divertir bastante encenando todos aqueles desencontros e desacertos. A narrativa, entretanto, é um pouco confusa e os personagens são apresentados de forma corrida. Ainda assim, a naturalidade do cinismo dos diálogos e o ideal de mostrar a festa um sintoma de aflições mais amplas presentes na sociedade, especialmente em um momento tão polarizado, se mostra acertado.

Da tarde idílica na França rural para a noite de chuva e caos, o apanhado breve de horas que o tempo diegético de Praça Pública cobre é um bom recorte que ajuda a inserir o espectador naquelas situações. Por mais que invista em alguns comentários previsíveis, como a batida noção de futilidade associada ao uso de redes sociais, há bastante sagacidade nas palavras afiada do roteiro de Jaoui e Bacri. Nem todas as feridas são curadas, nem sempre é possível haver conciliação, mas rir das próprias idiossincrasias parece ser o primeiro passo para refletir sobre elas.

Filme visto no 20º Festival do Rio, em novembro de 2018.
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