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Dragon Ball Super Broly
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3,0
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Dragon Ball Super Broly

A fórmula mágica de Akira Toriyama

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Ao ficar sabendo de uma profecia que, caso concretizada, afetará o futuro de seu promissor filho e herdeiro do trono, um rei decide solucionar o problema antes mesmo de seu surgimento. Para isso, ele envia o menino que rivaliza com o príncipe para uma terra muito distante de sua nação, que atualmente é dominada por um exército mais poderoso e subjugada por um insano tirano estrangeiro. Mas, como em toda tragédia que se preze, o destino não pode ser evitado — e por mais que possa parecer, esta não é a sinopse de uma peça de William Shakespeare.

Parte história de origem, parte primeiro ato de um inédito arco de histórias e parte sequência direta de O Renascimento de Freeza, Dragon Ball Super Broly, vigésimo longa animado da franquia criada por Akira Toriyama, pretende ser épico em todos os seus detalhes, mas sem perder a leveza característica da saga do icônico Goku. Em 1h40 de duração, o diretor Tatsuya Nagamine, animador veterano da Toei Animation, aplica a fórmula mágica do roteiro de Toriyama com objetividade, uma dose bem-vinda do melodrama nipônico e, acima de tudo, inteligência visual.

Estruturalmente falando, esta obra não guarda nenhuma surpresa, particularmente para aqueles que, no Brasil, cresceram acompanhando a busca pelas esferas do dragão. Para começo de conversa, um pouco de exposição narrativa — didática o suficiente para os novatos e contínua o bastante para não alienar os fãs mais antigos —, construindo as bases emocionais e estabelecendo o que está em jogo neste conflito intergaláctico que envolve alguns dos seres mais poderosos de todos os universos. Coloque umas pitadas de comédia, especialmente na voz de Wendel Bezerra, e depois parta para uma batalha de proporções bíblicas que dura aproximadamente uma hora inteira. Aí está: a síntese de Dragon Ball Super Broly.

No entanto, materializar o esquema de extremo sucesso de Toriyama — não modificado desde o êxito inicial da série Dragon Ball Z e dos mangás — não é uma missão simples apesar das aparências. Se por meio desta análise, Dragon Ball Super Broly soa como uma mera repetição do que já foi visto anteriormente nesta mesma franquia, a prática prova o contrário — e o que garante a variação do resultado final em relação às produções que antecedem este filme é o vilão-titular, inteligentemente construído como protagonista da aventura.

De forma semelhante como Thanos é o personagem cujo arco narrativo informa o desenvolvimento de Vingadores: Guerra Infinita, à título de comparação, é a trajetória de Broly de bebê renegado ao inimigo mais poderoso de Goku e cia. que mantém o frescor e o senso de novidade da trama. Controlado desde a infância e treinado para tornar-se a mais letal arma de guerra, o saiyajin é, em seu íntimo, uma criatura com um desejo de paz que não conheceu nada senão o inferno da dominação e da violência. Impossibilitado de trilhar o próprio caminho e condenado a obedecer os desígnios de seu pai, o general Paragas, Broly é um personagem de grande profundidade psicológica, e é certamente o maior trunfo desta película por gerar empatia com o espectador, uma qualidade compartilhada pelos melhores antagonistas.

Ao redor do vilão que é vilão contra sua vontade, surgem temáticas relevantes, como o conflito de gerações; as influências parentais, positivas e negativas, na criação de seus filhos à la tragédia grega; tirania, ditaduras e escravidão; conspirações novelescas pelo poder de um reino — ou, no caso, o Planeta Vegeta, terra natal dos saiyajins cuja destruição também é um elemento central da história —; e, é claro, a moeda que equilibra a vingança e a redenção. Por mais que a finalidade de Dragon Ball Super Broly seja a megalomaníaca batalha entre Goku e Vegeta e Broly, estes temas e embates psicológicas operam como sólidas fundações dramáticas que só ressaltam a gravidade e o peso do conflito físico principal — solucionado de maneira criativa e inesperada.

Todas essas qualidades são, aliás, realçadas pela qualidade técnica do âmbito visual, que combina os traços originais do design de personagens de Toriyama a competentes efeitos computadorizados. Mescladas, as duas técnicas de animação expandem a grandiosidade da batalha — que nunca é confusa em termos de movimentos: sempre é possível compreender a física dos golpes e ataques — em um espetáculo luminoso. A hostilidade do continente ártico, que faz as vezes de cenário para o embate derradeiro, e a abertura geográfica do local criam uma paisagem extensa e interessante o bastante para que o combate seja atraente e empolgante, sem outros elementos para desviar o foco da briga.

Exagerado, no fim das contas, Dragon Ball Super Broly poderia se beneficiar de uma certa sutileza em determinados momentos ou motivações em suas tramas paralelas — Bulma e Freeza, que sempre foram  interessantes no decorrer da saga são, aqui, rebaixados à indigesta posição de fracos coadjuvantes, status que não lhes cabe muito bem. Por outro lado, o melodrama intenso, as frases de efeito e a amplamente dramática trilha sonora cuidam para que o filme soe natural dentro dos padrões da franquia. Contendo algumas participações especiais surpreendentes e ligando-se diretamente à saga original, Dragon Ball Super Broly é mais do mesmo — só que no melhor sentido desta expressão.
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