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    Santoro - O Homem e sua Música
    Críticas AdoroCinema
    1,0
    Muito ruim
    Santoro - O Homem e sua Música

    Filme adjetivo

    por Bruno Carmelo

    O diretor John Howard Szerman considera o compositor Cláudio Santoro um gênio. A viúva do artista acredita que ele foi um dos melhores da história. Seus amigos o julgam tão bom quanto Beethoven ou Mozart. Maestros e regentes contemporâneos estimam que ele revolucionou a música. Alguns dizem que suas composições provinham de inspiração divina.


    A crítica poderia parar por aqui, porque Santoro - O Homem e Sua Música resume-se ao festival de elogios enunciado acima. Durante 90 minutos, personalidades vangloriam Cláudio Santoro, enquanto orquestras interpretam suas composições. O festival de adjetivos é tão exacerbado que beira o cômico: além de ser um músico exemplar, ele também é mostrado como homem perseverante, um gênio obrigado a dar aulas de música para sobreviver (algo demonstrado como o cúmulo da decadência artística), e que mesmo assim dava concertos de graça. Ele aprendia línguas com facilidade, cativava todos ao redor. Ah, a esposa ainda fala que, quando criou gado, Cláudio Santoro aprendeu tão rápido que se tornou o melhor criador da região.

     

    O documentário junta-se a outras pequenas produções nacionais, igualmente problemáticas, como Sobral - O Homem que Não Tinha Preço e Hermógenes - Professor e Poeta do Yoga. São filmes sem ambição cinematográfica, apenas discursiva: cada diretor, fascinado por seu tema, decide mostrar como o homem em questão era bom, generoso e talentoso em sua área. Trata-se de obras de fanáticos, incapazes de perceber algo que não seja profundamente positivo em seu ídolo. O resultado, desprovido de nuance, torna-se inverossímil, pois o exagero didático cria uma aparência de ficção. O sujeito do estudo é tão idealizado que parece nunca ter existido. Termina-se a sessão sem conhecer o homem por trás do fetiche.

     

    Em termos de linguagem cinematográfica, estamos em um terreno de pobreza assombrosa. A imagem limita-se a repetir o discurso afirmado pelo som: quando se fala em Vinícius de Moraes, uma fotografia do poeta aparece na imagem, quando se fala em uma usina, enxerga-se a imagem de uma usina. Mesmo quando uma cantora evoca as ondas do mar, vemos ondas do mar; quando cita as folhas balançando na árvore, veem-se folhas balançando numa árvore. O didatismo poderia ser destinado às crianças muito pequenas, que talvez ainda não saibam o que são folhas, ou ondas, e precisem de uma referência visual. Isso sem falar que as imagens redundantes são de baixa qualidade, mal escolhidas e montadas.

     

    Os problemas se estendem aos depoimentos, com péssima fotografia, edição pouco cuidadosa e uma nitidez na imagem digital que remete a um vídeo caseiro. De fato, estamos perto das reportagens que buscam valorizar a música erudita nos canais impopulares da TV aberta. Para quem ainda não entendeu que Cláudio Santoro é genial, a conclusão apresenta na tela o seu currículo completo, passo a passo, orquestra a orquestra. Se o falecido estivesse vivo e pleiteando alguma vaga de emprego, seria aceito na hora. Como obra cinematográfica, no entanto, Santoro - O Homem e sua Música constitui um espetáculo lamentável.

     

    Filme visto no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em setembro de 2015.

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