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Missão Impossível - Efeito Fallout
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Missão Impossível - Efeito Fallout

As boas maneiras

por Taiani Mendes

Lá vem ele de novo, o incansável Tom Cruise realizando as mais improváveis e arriscadas façanhas na pele do agente Ethan Hunt. O fato do ator executar suas cenas de ação, dispensando dublês, se tornou um diferencial e arma de marketing da franquia Missão Impossível – nascida nos cinemas quando Bond, James Bond já estava no 17º longa-metragem –, e assim as sequências foram se tornando cada vez mais complexas e ousadas, assumindo o desafio de superar cada filme anterior e os limites do astro.


Lançado em 2015, Missão Impossível – Nação Secreta tem, obviamente, cenas absurdas estreladas por Cruise, mas a ótima trama escrita e dirigida por Christopher McQuarrie fez a série subir de patamar apresentando personagem feminina fortíssima e explorando uma suposta dubiedade do mocinho e vilões ex-aliados – estrutura dramática que acabou sendo reaproveitada em 007 Contra Spectre e Velozes & Furiosos 8.


Neste Missão Impossível – Efeito Fallout, fortemente ligado ao quinto longa, Ethan precisa mais uma vez lidar com Solomon Lane (Sean Harris) e é obrigado a trabalhar em parceria com o agente especial da CIA August Walker (Henry Cavill). Como bom exemplar de gênero, disputas entre agências nacionais de espionagem, conflito de métodos de ação, figuras ambíguas, acerto de contas, desmascaramento de vilão, grandes armações, perseguições intermináveis e porradaria fazem parte do pacote e são ingredientes muito bem dosados pelo diretor, que por outro lado sequer se dá ao trabalho de esconder antagonistas, não perde tempo com explicações desnecessárias e adota como tema a bondade de seu protagonista.

Ethan, muitas vezes trouxa de tão prestativo e gentil, precisa arcar com as consequências de decisões tomadas por excesso de boa índole – por exemplo, não ter matado o vilão quando teve oportunidade –, enquanto é atormentado por lembranças dolorosas de sua esposa, Julia (Michelle Monaghan), que o público não vê desde Protocolo Fantasma. Reflete-se sobre escolhas e a decisão entre uma vida conhecida ou milhões anônimas é drama recorrente no filme.


O grupo terrorista presente na trama se chama Apóstolos, atentados a lugares sagrados são sua prioridade e o infalível Ethan ganha ares de Jesus como o comprometido salvador da humanidade impedido de se “distrair” com interesses amorosos, apoiado por um reduzido, porém fiel séquito que nele confia cegamente, contrário ao uso de armas de fogo e defensor da vida. Há sempre uma enorme cruz invisível sobre seus ombros.


Soa ultrapassada a impossibilidade de conciliação entre vida pessoal e profissional e o agente é mesmo mostrado como esse ser especial estranho à contemporaneidade, um gentleman único, derradeiro bastião de certo tempo que não existe mais – o que é representado de maneira clara na cena em que Hunt se vê isolado, sem ação e sem saída no alto de um velho prédio em Londres, inimigo perdido de vista e rodeado por construções modernas.


Se os homens não o entendem e reprovam seu estilo de agir, as mulheres o acolhem. Em mais de uma ocasião Ethan se vê em posição vulnerável e é salvo por uma delas, que sempre estão um passo adiante. Ocupando diversas esferas – em posição de poder, no jogo de espiões, defendendo a lei e a ordem, salvando vidas e realizando negociatas -, as personagens de Angela Bassett, Rebecca Ferguson, Monaghan e Vanessa Kirby indicam que presente e futuro são femininos e demonstram gratidão a esse Ulisses incorrigível cuja Odisseia nunca terá fim.

Primeiro diretor a retornar à franquia, McQuarrie às vezes parece ter sido substituído por J.J. Abrams (Missão Impossível 3) pelo abuso de flare, mas de fato o que se destaca positivamente é sua intimidade com os personagens, a habilidade de criar sequências enormes de ação com tensão crescente e o humor visual. Missão Impossível – Efeito Fallout é divertido como poucos e sem piadas forçadas ou tudo jogado no colo do alívio cômico. A graça nasce de troca de olhares, plano/contraplano improvável e com duração estendida, reações sem palavras e do conhecido azar de Ethan Hunt, sempre envolvido em surreais situações complicadíssimas que só vão piorando.


Nesse sentido, é importante elogiar a sagaz decisão de inserir no filme o famoso registro do momento em que Cruise quebrou o tornozelo e continuou correndo, tentando preservar a gravação. Aguardada com expectativa por aqueles que acompanharam as notícias durante a produção, a sequência abrilhanta uma corrida nas alturas que, não fosse por isso, acabaria totalmente esquecida, ofuscada por momentos filmados e montados com excelência, como o hilário embate no banheiro masculino, a perseguição de helicóptero e as fugas pelas ruas de Paris – além de tudo a franquia ainda vende bem seus cenários.


Com Rebecca Ferguson (felizmente de volta e com importância), Simon PeggVing Rhames "voando" em cena, Jeremy Renner não faz falta alguma como William Brandt, figura ausente que talvez permaneça como único fio solto ao fim de uma história que se propõe a resolver questões do passado e cimentar próximos caminhos e o faz com louvor. É significativo que justamente Renner, contratado como suposto substituto de Cruise na série, não dê as caras aqui. Citando uma personagem, Ethan "nunca esteve melhor" e o mesmo pode ser dito sobre a franquia. Apesar de ser lema dos inimigos, “Quanto maior o sofrimento, maior a paz” combina perfeitamente com a rotina do trágico herói e no caso até com Tom Cruise, que superou o acidente e acabou usando-o a favor da obra, um êxito do cinema de ação.

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