Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    Por Trás dos Seus Olhos
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Por Trás dos Seus Olhos

    Ver é poder

    por Bruno Carmelo

    Gina (Blake Lively) se encontra em posição de fragilidade. Cega desde a infância, ela leva uma vida doméstica, dependente do marido James (Jason Clarke). O estranhamento se intensifica quando o casal se muda para a Tailândia, devido a uma promoção de trabalho. De repente, Gina se encontra num país que não pode ver, cercada por pessoas que desconhece, escutando uma língua que não compreende. Sua visão de mundo, por assim dizer, é filtrada pelo marido, num esquema que convém a ambos: ele adora cuidar de sua mulher, ela adora ser cuidada pelo marido.


    A rotina é alterada pela chegada de uma nova cirurgia, capaz de restituir a visão em um dos olhos da protagonista. Surpresos, ambos aceitam a proposta – quem não aceitaria? – apenas para descobrir que estavam apaixonados não apenas um pelo outro, mas por esta configuração muito específica de relacionamento. A independência de Gina leva ao desejo de explorar os lugares, as cores, as pessoas. Ela quer sair sozinha, se sentir bonita, desejar outros homens e ser desejada por eles. Pela primeira vez, a jovem mulher busca ter a experiência de controlar o marido e cuidar dele.


     


    Por Trás dos Seus Olhos parte desta premissa para subverter uma série de códigos. O primeiro deles diz respeito à representação da cegueira e da deficiência física: o diretor Marc Forster, que assina o roteiro junto de Sean Conway, oferece um retrato respeitoso e criativo da deficiência visual. Em diversos momentos, o projeto oferece o ponto subjetivo de Gina, permitindo ao espectador enxergar o mundo como ela. Somos confrontados a vultos, sombras, borrões, forçando a nossa percepção de som e a nossa dedução a partir de pequenos indícios. A paisagem sonora é rica e caótica.

     

    Além disso, o isolamento psicológico e geográfico da protagonista é ilustrado por distorções visuais das ruas, pontes e multidões de Bangcoc, criando uma visão próxima do pesadelo. Em termos visuais, o filme oferece imagens muito mais assustadoras que a maioria dos filmes de terror recentes, apenas pela aceleração de carros ou a liquefação da paisagem em forma de mosaicos. O resultado é ainda mais potente por corresponder a um estado psicológico: Forster se dedica a criar imagens para sentimentos que, por definição, não seriam imagéticos.

     

    Outro aspecto de grande interesse é a investigação do desejo através de símbolos. Por Trás dos Seus Olhos representa um cinema adulto no melhor sentido do termo: os criadores acreditam na inteligência dos espectadores, sem precisar explicar através dos diálogos a cegueira da protagonista, as circunstâncias exatas do acidente sofrido na infância, a pulsão sexual da mulher que agora enxerga. Os diálogos são verossímeis, evitando explicações e simplificações. Como os dois personagens estão igualmente confusos, a maior parte dos conflitos se desenvolve num silêncio perturbador.


     


    A trama dedica tempo considerável ao retrato da pulsão escópica, ou seja, o desejo focado no ato de ver e ser visto. O sexo adquire um sentido importante não apenas como estímulo físico, mas como fonte de controle e de manipulação. O ato de ver representa o empoderamento de Gina, uma possibilidade de se posicionar de modo igualitário dentro da vida do casal. O acesso igualitário às imagens interfere no desejo – vide a bela cena em que a esposa tenta vendar o marido durante o sexo, para o desespero deste. O roteiro imagina uma série de situações em que a posição de cada um deles é testada e subvertida.

     

    Após duas engenhosas reviravoltas, a conclusão também se baseia no poder das sugestões. Partindo de um drama, chegamos a um suspense cada vez mais amargo, e ousado por envolver os protagonistas em situações moralmente questionáveis, capazes de testar a identificação com o espectador. Forster oferece uma história amarga, obscura, povoada por pessoas um tanto perversas. Neste sentido, a versão brasileira ganharia em manter o título original, “Eu só vejo você”, já que esta frase possui um sentido importantíssimo no desenlace. A decisão de substituir a frase original por “Por trás dos seus olhos” retira o sentido de uma cena essencial.

     

    Mesmo assim, a escolha não retira os valores de um suspense psicossexual inteligente, sem medo de se exceder às vezes (a figura grotesca do cunhado, o desfecho exagerado envolvendo James), mas crente numa narrativa cujo sentido se compõe apenas pela junção de indícios, de símbolos. Este é um belo quebra-cabeça psicologicamente complexo, como o cinema perdeu o costume de fazer.

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    Comentários

    • Patrícia Guimarães
      Filme muito interessante e muito sutil ao mostrar um relacionamento tóxico. Não porque ela fez a cirurgia, mas por que sempre foi assim, como mostra na cena já mencionada da balada quando ela ainda não enxerga. Concordo com os excessos, mas acho que a trama vale um 4,5.
    • Ro
      Amei o filme!!Gostei bastante desta crítica.A questão da cegueira pode ser uma metáfora para qualquer tipo de sofrimento que um parceiro possa viver com um abusador emocional.Ela, simplesmente passou a “enxergar” a vida segunda sua ótica, que seu marido inseguro não permitia que visse a não ser sob uma única ótica, a dele.Quando ele percebe que ela se “libertou” dele, passa então a querer boicotar suas conquistas e tenta trazê-la novamente para a escuridão, à não liberdade conquistada, voltando a depender somente dele, devolvendo-lhe o controle de sua vida.Fim maravilhoso!Enfim a liberdade!!!!Um bom tema para quem vive preso a um abusador, “ENCHERGAR” enquanto é tempo, mesmo não sendo CEGO
    • Camib
      Achei o filme incrível. Mas como era de se esperar muita gente atacando a protagonista sem perceber o quanto o marido era obcecado por um relacionamento onde ele mantinha totalmente ela dependente dele. Tanto que tem uma cena onde ele a observa de longe desesperada procurando ele. Fora que ele adulterou os remédios. Errada ela esta, mas foi só ela mostrar um pouco de personalidade que o cara tentou deixar ela cega novamente, antes mesmo dela trair. Fora que até com a cadela ele sumiu pq nao aguentou dividir a atenção. Ela estava errada, mas antes errada e livre do que cega e subordinada
    • João S
      Crítica infundada. O diretor criou uma confusão completa de símbolos e imagens que não levam o interessado(expectador) a nenhum questionamento psicológico.Sequência feita mais ao acaso do que num plano. Exagero total num clima de suspense quando deveria ser clima de romance. Mesmo com as dificuldades da cegueira.Mais um equívoco de crítica que busca genios no deserto.
    • Logan Chigurg
      um resumo desse filme: a garota passa a enxergar e vira uma tarada sexual egoísta que não valoriza nada do que o marido fez todos os anos por ela.
    • Vânio Coelho
      Resumo: A mulher não enxergava. Fez cirurgia de corneas, com apoio do marido. A primeira coisa que ela fez depois que começou a exergar foi meter um par de chifre na pessoa que sempre a apoiou. Conclusão: Não interessa de que forma você vê o mundo. O importante é ser livre, de mente e corpo e alma, e, mais do que isso, ser feliz, cada um do seu jeito, cada um da sua forma. Ninguém é dono de ninguém.
    • Thiago Otaviani
      Filme muito bom. Recomendo .
    • Bruna Torres
      assisti hoje ..... gostei ....mas esperava um final mais explicativo,mais completo o filme acaba na hora do climax do suspense .....
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