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3,5
Bom
Eva Não Dorme

Uma lenda nunca morre

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Aos 33 anos de idade, Eva Perón faleceu de um câncer no útero. Pouco tempo depois, seu marido foi vítima de um golpe de Estado. O cadáver da esposa foi ocultado do público e enterrado no Cemitério Monumental de Milão, até ser trazido de volta à Argentina com ajuda de Isabelita Perón, nova esposa de Juan Perón. Estes dados contextualizam a morte de Evita, porém nenhum deles é mencionado no filme Eva Não Dorme. Sem pretensões históricas ou documentais, o projeto privilegia uma leitura poética sobre o papel dos ícones na sociedade.


Eva Não Dorme - FotoO roteiro parte da morte para imaginar os sucessivos tratamentos físicos e midiáticos que o corpo recebeu. Para representar o apelo de Evita junto às plateias da época, o diretor Pablo Aguero utiliza materiais de arquivo, com discursos da antiga primeira-dama sobre a igualdade social. As imagens em branco e preto criam forte contraste com o conteúdo fantasista das cenas fictícias, elaboradas em estúdio, com pouquíssimos personagens em atitudes pouco verossímeis. O médico legista, o motorista que carregou o cadáver, o político responsável pela ocultação do mesmo, todos são implicados na tentativa de influenciar um ícone – o que o tornou mais vívido na memória do povo argentino.

 

De certo modo, os longos segmentos teatrais lembram os trabalhos anárquicos de Peter Greenaway, que parte do corpo humano, e da morte, para representar a vida. Aguero também gosta da performance, do kitsch, numa escolha adequada para refletir a construção artificial das lendas. As cenas são longas, em planos fixos, permitindo ao espectador perceber cada elemento do cenário, cada iluminação, cada gesto dos atores em cena. Pela maneira como se movem, pelas atitudes inesperadas diante do cadáver, eles se tornam símbolos de segmentos sociais inteiros: o povo argentino, o governo, as vozes contestadoras da ditadura no país.

 

Eva Não Dorme - FotoIsso não significa que todas as partes se sustentem da mesma maneira: embora demonstre controle da plasticidade e atuações, Aguero chega a esgotar o sentido de algumas cenas, esticadas até perderem sua novidade, sem se renovarem. A discussão em planos sequência entre o motorista (Denis Lavant, o homem ideal para personagens antinaturais) e o soldado (Nicolás Goldschmidt) impressiona a princípio pelo dinamismo extraído em espaço tão restrito. No entanto, depois de alguns minutos, o episódio não tem muito mais a oferecer. O mesmo vale para o calvário do político (Daniel Fanego) detido por anarquistas: o huis clos demonstra potencial, com composições cuidadosas que acabam se repetindo e se enfraquecendo.

 

O dinamismo do curto filme é comprometido, embora sua ambição estética seja louvável. A imagem do cadáver boiando em fluidos de embalsamamento é belíssima, enquanto a abertura sobre o papel das lendas, com Gael García Bernal representando a voz autoritária do exército, se encarrega de inscrever Evita na eternidade. Neste duelo entre vida e morte, corpo concreto e imagem abstrata, tem-se a impressão de os polos são flexíveis, instáveis. O resultado lembra simultaneamente um sonho e um pesadelo, um retrato em construção e uma biografia em desconstrução. Um projeto múltiplo, fragmentado – até demais – porém ciente de que, para representar símbolos, é preciso construir seus próprios símbolos, sua própria mitologia.

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