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    O Mundo de Daniel
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    O Mundo de Daniel

    Pedófilo, com orgulho

    por Bruno Carmelo

    Entre os diversos tabus da sociedade, a pedofilia permanece um dos mais desconhecidos e demonizados. Como alguém pode ter desejos sexuais por crianças? Todo pedófilo ataca meninos e meninas indefesos? Como impedir esses crimes? O documentário tcheco O Mundo de Daniel discute essas questões de maneira complexa, humana e sem julgamentos.


    O personagem principal do filme é Daniel, jovem escritor de 25 anos, e pedófilo assumido. Para nenhum espectador ter dúvidas quanto às suas pulsões eróticas, uma cena inicial mostra um teste de Daniel com um psiquiatra, que calcula seus estímulos cerebrais a partir de fotos nuas de crianças, adolescentes e adultos. A “atividade peniana” do rapaz é mais intensa diante das imagens de garotinhos de cerca de dez anos, e desaparece completamente diante da nudez de jovens acima de doze anos.

     

    Isso não significa que Daniel tenha atacado crianças: esse homem de princípios morais rígidos condena qualquer forma de abuso infantil, e pretende manter suas fantasias eróticas apenas na mente. “Não preciso transar, eu tenho a minha mão direita”, afirma. Acima de tudo, ele está apaixonado por um garoto de seis anos de idade, filho de um casal de amigos. O escritor consegue visitá-lo a cada dois meses, passando algumas horas na presença da criança. Nos dias seguintes, sonha com seu amado, diante de um mural em sua casa, com dezenas de fotos do garoto.

     

    O documentário da diretora Veronika Liskova é marcado por diversas ousadias políticas e cinematográficas. A primeira delas consiste em não condenar seu objeto de estudo: vemos Daniel trabalhando, cozinhando, conversando com os amigos (muitos deles pedófilos) sem qualquer indício da perversidade ou da violência associadas à imagem do predador sexual. Outra ousadia encontra-se no pudor do tratamento: ao invés de um discurso chocante, Liskova discorre sobre todas as práticas sociais ou biológicas que poderiam gerar o desejo sexual por crianças, sem jamais descrever o abuso infantil, nem mostrá-lo na imagem. Muitas considerações e suposições são deixadas à imaginação do espectador.

     

    A terceira postura corajosa diz respeito à dissociação entre a ideia e o fato: Daniel tem desejos criminosos, mas nunca os colocou em prática. Pode-se odiá-lo apenas pelas ideias? O pensamento cristão, em especial, condena o fato de “pecar em pensamento”, mas pode-se efetivamente censurar os desejos das pessoas? Se Daniel mantiver sua tendência pedófila reprimida, qual seria a diferença entre ele e qualquer outro jovem de sua idade? O Mundo de Daniel convida o espectador a se identificar com o protagonista, não por sua sexualidade, mas pelo sofrimento em relação ao próprio desejo, e pelo amor não correspondido. O maior incômodo, e fruto de reflexão, provém do convite a enxergar-se naquele homem que a sociedade facilmente taxaria de “monstro”.

     

    Outro fato perturbador para a consciência cristã é a ausência de culpa: Daniel não se martiriza por suas pulsões, muito pelo contrário. Ele escreve livros e peças sobre o assunto, fala aos familiares e amigos sobre sua pedofilia e caminha no meio da Parada Gay, pedindo que seu desejo, contanto que inofensivo, também seja digno de respeito. Com seus silêncios, sua edição precisa e os enquadramentos cuidadosos ao preservar a privacidade dos envolvidos, Liskova contribui à reflexão e ultrapassa preconceitos – que o espectador concorde com as ideias de Daniel ou não.

     

    Filme visto no Festival do Rio, em outubro de 2015.

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