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4,5
Ótimo
O Dia do Mineiro

Olhar estrangeiro

por Bruno Carmelo

Em um vilarejo rural da Ucrânia, diversos homens passam os dias nas minas de carvão, conformados com as condições precárias de trabalho, e sem esperanças de melhora. Para premiar os profissionais de destaque na área, existe o tradicional Dia do Mineiro, feriado comunista no qual uma rosa simbólica é entregue aos melhores técnicos elétricos, de construção etc. A pequena festa é acompanhada por uma fanfarra, algumas palmas solitárias, uns minutos de silêncio para os vários mortos em trabalho, e a frase “Parabéns! Esperamos que o salário de vocês seja pago em dia”, proferida por uma representante da empresa.


O Dia do Mineiro - FotoEste documentário fornece uma dimensão tragicômica, certamente muito irônica e terna, desta profissão em vias de desaparecimento. Como um bom cronista, o diretor Gaël Mocaër registra as interações entre os profissionais, conferindo ao título O Dia do Mineiro um significado duplo e oposto: por um lado, torna-se algo especial, quando se refere ao feriado mencionado acima, que ocorre uma vez ao ano, por outro lado, diz respeito ao banal, ao cotidiano, ao “dia a dia do mineiro”. Mocaër atua nestes dois registros, buscando uma imagem especial nos gestos comuns destes homens.

 

Portanto, as imagens são belíssimas, extremamente estilizadas. O cineasta posiciona a sua câmera dentro dos armários nos vestiários, na saleta das secretárias, no quintal onde ficam estacionados os carros. Um pequeno gesto das mãos, uma bela poça d’água refletindo os corpos dos mineiros e um veículo congelado pelas temperaturas baixas são registrados pelo olhar atento de Mocaër, que afirmou ser capaz de passar horas com a câmera posicionada no mesmo lugar, esperando pela imagem perfeita. Longe de um preciosismo vão, este olhar de fotógrafo traz a noção de controle e de auto afirmação do cineasta em um ambiente imprevisível, alheio a sua cultura.

 

O Dia do Mineiro - FotoJustamente, o diretor não fala a língua local, e sua presença não é sempre bem-vinda nas minas de carvão. O cineasta francês explora este fator e deixa os mineiros conversarem livremente, com visível desdém pela riqueza dos europeus, e pelo fato de que os “civilizados” franceses jamais se importariam com a vida precária que eles levam neste vilarejo distante. Por isso, demonstram desprezo pelo próprio filme, que ora causa irritação por causa da presença constante da câmera, ora é percebido como o projeto fútil de um turista mimado. O Dia do Mineiro transforma-se em uma interessante reflexão sobre a representação de uma cultura alheia, e sobre a intervenção e a subjetividade no cinema documentário.

 

Quando o diretor entra nas minas, sem o mesmo costume dos trabalhadores, ele mostra-se perdido, aflito, com a câmera tremendo, enquanto os outros debocham dele. A sensação de surpresa é transmitida de maneira eficaz ao espectador, que não deve ter dificuldades em se identificar com este ocidental excluído do meio em que se encontra, e que é um dos personagens principais, apesar de não aparecer em cena, e não pronunciar mais do que um ou dois palavrões ao longo do filme. O olhar estrangeiro, repleto de curiosidade, boa vontade e ignorância, torna-se o tema central deste projeto tão belo quanto profundo. 

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