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Artista do Desastre
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
Artista do Desastre

Paródia e tributo

por
O ano recém-terminado foi esquisito para muita gente, à luz dos acontecimentos no mundo e campos de estudos variados. Em Hollywood, 2017 foi particular e positivamente estranho para duas personalidades que deram a volta por cima e reergueram suas carreiras ao patamar de um novo auge. Nicole Kidman levou quatro longas a Cannes, foi homenageada no prestigiado festival de cinema francês e ganhou muitos prêmios por seu papel na série Big Little LiesJames Franco também teve um grande momento na televisão, interpretando os gêmeos protagonistas e assinando dois episódios como diretor em The Deuce, de David Simon. No cinema, por pura ironia, ele tem o seu melhor trabalho na frente e detrás das câmeras justo em um filme sobre o pior filme de todos os tempos.



Artista do Desastre se baseia em Tommy Wiseau e seu primeiro trabalho como produtor, diretor, roteirista e ator, em The Room. James Franco assume as mesmas funções nessa biografia cômica, mas de um modo diferente do aventureiro que ignora sua bizarria e produz uma obra cultuada, involuntariamente, graças à sua total falta de noção em tudo a que se propõe. O tom desconexo com que Franco cria o personagem é calculado (como prova seu ótimo timing de comédia), tal como o visual esquisito reproduzido pelo figurino, pela lente azul grosseira, pelo penteado desarmonioso com o rosto, pela maquiagem de um modo geral. Tudo isso é estranhamente condizente, como os fãs de The Room notarão desde as primeiras cenas e os não iniciados terão o prazer de testemunhar no final, quando Franco revela que nada daquilo é exagero, mas a mais pura e tétrica realidade.



Desse modo, The Disaster Artist (no original) se alça além da mera tiração de sarro com The Room. O empenho de James Franco em recriar milimetricamente cada cena do original — o que ele revela orgulhosamente em um split-screen já no fim, em uma sequência de cafonice certeira e de arrancar gargalhadas — indica seu encanto pelo clássico acidental. Mais ainda, Franco tem o propósito de descobrir Tommy Wiseau, por isso o encena com afeto. Nesse sentido, Artista do Desastre até lembra o excelente documentário Jim e Andy, revelando os bastidores caóticos de um projeto conduzido por uma força da natureza, alguém fora de controle. Mas, ao contrário de Jim Carrey, Tommy Wiseau não tem ciência de sua loucura. Franco reconhece essa condição e é empático. Um exemplo disso é a ternura com que ele registra a expressão de tristeza do "artista" ao perceber as gargalhadas que a plateia dispensa ao seu filme, projetado como algo sério.



Dave Franco é a outra parte que confere dignidade ao longa-metragem, e em uma atuação surpreendente. Ele interpreta Greg Sestero como o contraponto de Tommy Wiseau, surgindo como um jovem sonhador que amadurece diante da tela, atuando com seriedade até mesmo quando usa uma barba de pentelhos mal colados (é proposital, embarque!) e se comportando como um ator ruim quando na pele de Mark, personagem de Greg em The Room. Esposa de Dave na vida real, Alison Brie vive sua namorada, Amber. Um dos melhores amigos de James Franco, Seth Rogen vive o único profissional sensato da equipe, aquele que aponta ao público o desgaste e o ridículo daquela produção, e tem outra função: mostrar que Artista do Disastre é um projeto tão pessoal quanto The Room. E, pensando bem, nem são tão diferentes entre si. Um é autoconsciente, o outro, não. E ambos são comédias muito genuínas — brilhantes. Apenas.

Filme visto no 19º Festival do Rio, em outubro de 2017.
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