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2,5
Regular
Órfãos do Eldorado

Atração e repúdio

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Não é fácil adaptar Milton Hatoum para o cinema, graças à característica de mesclar experiências e memórias em seus livros. Guilherme Cezar Coelho sabia bem desta dificuldade e, também por isso, levou quatro anos para enfim tirar do papel a adaptação de Órfãos do Eldorado, um dos livros mais elogiados do autor. A saída, segundo o próprio diretor, foi modificar consideravelmente a história de forma a oferecer ao espectador uma experiência diferente do livro. É claro que a essência foi mantida, mas personagens foram suprimidos e outros condensados e lendas da Amazônia que não estão no livro foram incluídas na trama. Tudo para ambientar a vida de Arminto Cordovil, o filho pródigo que retorna à casa do pai após um longo período ausente.

Órfãos do Eldorado - FotoA bem da verdade, Órfãos do Eldorado é um filme mais de ambientação do que propriamente de uma história a ser acompanhada. Sempre em ritmo lento, o longa aos poucos oferece ao espectador a chance de adentrar no mundo do introspectivo personagem principal, interpretado com competência por Daniel de Oliveira. Através de seu olhar é possível sentir o rancor pelo que aconteceu no passado, jamais posto às claras, em relação ao pai e a Florita (Dira Paes), ex-amante que agora atende aos caprichos sexuais do patriarca.

Por sinal, o relacionamento entre Arminto e Florita é um dos elementos mais interessantes do longa-metragem. Trata-se de um envolvimento carnal, com um desejando devorar o outro, mas ao mesmo tempo um embate que envolve atração e repúdio (do lado dele). Os encontros do casal são sempre envoltos em sombras, como se o passado nebuloso e pesado estivesse pairando sobre eles. Tal relação apenas é amainada com a chegada do terceiro vértice do trio, interpretado por Mariana Rios, que tem grande importância no desenvolvimento da história. Apesar disto, a participação da atriz é pequena: tirando a canção tecnobrega de sua primeira aparição, ela sequer diz um diálogo em cena. Trata-se muito mais de uma personagem idealizada do que desenvolvida pela narrativa.

Com saltos bruscos no tempo, às vezes com anos separando cenas seguidas, Órfãos do Eldorado é um filme de ritmo pausado que, por mais que chame a atenção pelo bom desempenho dos protagonistas e a proposta de ambientação, enfrenta problemas sérios com o desenrolar da narrativa em sua segunda metade. Destaque para a coletânea de fábulas amazônicas exibidas no decorrer do filme e também o modo como o silêncio é explorado pela direção. Interessante.

Filme visto no 17º Festival do Rio, em outubro de 2015.
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