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    Homem-Aranha: Longe de Casa
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Homem-Aranha: Longe de Casa

    Verdades & mentiras

    por Francisco Russo
    Há várias formas de se analisar Homem-Aranha: Longe de Casa. A primeira delas, e mais urgente para os fãs, é em relação às consequências diretas dos eventos mostrados em Vingadores: Ultimato. Neste aspecto, os primeiros 10 minutos são essenciais: a partir de um hilário vídeo gravado por alunos da escola de Peter Parker é apresentada não apenas uma homenagem aos heróis mortos como, também, um panorama geral da sociedade neste oito meses após o retorno de metade dos seres vivos do planeta. Tempo não só para que o espectador se adapte a esta nova realidade - e conhecer o blip - mas, também, para se divertir com as (boas) piadas rápidas envolvendo os alunos, tia May e Happy Hogan.



    A segunda forma passa pelo enigmático Mysterio, em duas ramificações distintas. Há o lado mais óbvio, envolvendo a aparição do personagem e sua candidatura quase automática a ingressar nos Vingadores, passando por uma característica existente lá em Homem-Aranha: De Volta ao Lar no sentido de explorar o underground decorrente dos rastros deixados pelos super-heróis - lembra-se do Abutre e sua relação com o primeiro Os Vingadores? Há também a mensagem subliminar deixada pelo personagem, acerca do que acreditar ou não nos dias atuais, tendo por base a bagunça provocada por Thanos para refletir sobre algo bem mais corriqueiro do lado de cá das telonas: as fake news. Por mais que esteja maquiado neste ambiente de super-heróis, a associação é imediata - não apenas pelo que acontece, mas também o porquê de acontecer.

    Há ainda aquela que talvez seja a análise mais importante, acerca da essência do Homem-Aranha. Se De Volta ao Lar já trazia um certo incômodo pelo excesso de tecnologia como uma espécie de muleta ao personagem, atenuado pelo carisma de Tom Holland em um ambiente adolescente brilhantemente encenado, em Longe de Casa há ainda menos do herói aracnídeo. Não fisicamente, claro, mas no que o Cabeça de Teia representa.



    Como consequência direta de Vingadores: Ultimato, o clima juvenil repleto de piadas deixa Peter Parker para se alojar em seus amigos. Em alguns momentos funciona muito bem, especialmente nos trechos estrelados pela dupla Jacob Batalon e Angourie Rice, por mais que haja um exagero infantilóide em relação aos professores que acompanham a turma na excursão à Europa. Ainda abatido pela perda de seu mentor, Peter quer apenas curtir e se declarar para MJ... até ser convocado por um Nick Fury desorientado, sem entender direito a realidade neste mundo pós-Thanos, mas disposto a acreditar no que vê por não enxergar outra alternativa.

    É nesta necessidade ao entrar em ação que Longe de Casa apresenta sua primeira contradição, ao ignorar por completo o conceito do "grandes poderes trazem grandes responsabilidades" para inserir dúvidas acerca dos sacrifícios exigidos em ser um super-herói. Tal artimanha até é compreensível neste momento pós-Ultimato, mas soa (bastante) estranha ao ser aplicada com tamanha facilidade em um herói como o Homem-Aranha, cujo peso do dever acima de qualquer sacrifício faz parte de sua origem. Soa, mais uma vez, como se fosse um herói genérico qualquer.



    Soma-se a isto a proposta narrativa de, a todo instante, exaltar tanto Homem de Ferro quanto Capitão América nos feitos do próprio Aranha. Se mais uma vez tal proposta é reflexo direto do desfecho de Ultimato, ela amplifica ainda mais a falta de identidade existente neste Homem-Aranha. Se De Volta ao Lar era mais focado em um Peter Parker empolgado com os poderes recém-descobertos, insinuando um herói que ainda poderia se tornar, aqui vemos um garoto que deseja mais ser como seus ídolos do que propriamente alcançar luz própria. Deixa uma certa frustração: não basta apenas vestir o traje do Aranha e sair balançando teia afora, é preciso encarnar o que significa o personagem. Isso, Tom Holland ainda não é.

    O que não significa que ele esteja mal no filme, pelo contrário. Carismático como sempre, Holland diverte tanto ao lado dos amigos quanto ao contracenar com Jake Gyllenhaal, também competente como Mysterio. As conversas entre os dois transmitem uma certa ternura triste devido à solidão vivida por ambos, funcionando bem tanto para a narrativa quanto como dinâmica de elenco. Pena que o personagem logo enverede para o estereótipo, após a reviravolta explicada com uma boa dose de didatismo.



    Com cenas de ação competentes que exploram bem imagens captadas através de drones, Homem-Aranha: Longe de Casa cumpre de forma correta a função de ser o dia seguinte de Vingadores: Ultimato. Há nele um conflito existencial que permeia todo o longa-metragem, de forma que ao mesmo tempo seja uma comédia juvenil que dialogue com os eventos do Universo Cinematográfico Marvel em uma aventura solo do Cabeça de Teia que traga ainda reflexões implícitas à sociedade moderna. Até funciona, mas sacrificando certas características não só do super-herói, mas até mesmo do primeiro filme, superior a esta continuação. Resta aguardar se o terceiro filme solo enfim trará um Aranha que não seja tão dependente dos outros.
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