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2 Outonos e 3 Invernos
Críticas AdoroCinema
3,0
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2 Outonos e 3 Invernos

O preço da maturidade

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O cinema está repleto de histórias envolvendo relacionamentos, nos seus mais variados estágios. Sébastien Betbeder, diretor deste 2 Outonos e 3 Invernos, sabe bem disso e, sem querer inventar a roda, explora sem peso na consciência ícones comuns da comédia romântica. A começar por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, clássico absoluto de Woody Allen que serve como inspiração maior para a proposta envolvendo seus dois personagens principais: mais do que apresentar sua história, são os mesmos que a narram.


Diante disto, é comum ver tanto Arman (Vincent Macaigne) quanto Amélie (Maud Wyler) falando para a câmera e abrindo o coração sobre seus sentimentos de momento, sempre usando o pretérito. Conscientes do que viveram, os personagens relatam as angústias e a alegria ao encontrar o (suposto) par perfeito, seguindo a cadeia evolutiva de todo e qualquer bom romance. A opção pelo formato fullscream associado à câmera na mão e uma fotografia digital sem qualquer tratamento dão à produção um intencional ar amador, que combina com a ideia de testemunho pessoal do casal. Ponto para o diretor, pela conceitualização estética da narrativa implementada.

Soma-se a tal cuidado um certo verniz cultural, salpicado aqui e ali a partir de menções ora displicentes ora essenciais envolvendo referências um tanto quanto fora do mainstream. Gente como Judd Apatow, Michel DelpechEugene Green e Robert Bresson, que servem mais para ambientar tais personagens do que propriamente defini-los, ao mesmo tempo em que capturam o público-alvo desta comédia romântica francesa: o típico espectador do circuito de arte, que foge do cinemão mas também não quer experimentações mais radicais - ou seja, uma certa sofisticação bem dosada. Isso, o filme entrega.

O problema todo é que, por mais que haja tamanho apreço à forma, falta a 2 Outonos e 3 Invernos o necessário carisma para uma comédia romântica cativante e, também, uma história mais envolvente. Verborrágico por natureza, o longa-metragem aposta em longas elipses e uma atenção excessiva a coadjuvantes desinteressantes, que afastam (ainda mais) o espectador do casal principal. A narrativa dividida em breves esquetes, envolvendo questões triviais do cotidiano, também provoca um certo cansaço, ainda na primeira metade do filme.


Mais madura, a reta final chama a atenção pela fuga ao lugar comum do apaixonar-se. É na crise que Arman e Amélie se veem diante do medo do passo seguinte, enfrentando um necessário amadurecimento diante da angústia em viver a dois. Por mais que não tenha a óbvia vibração do início, é neste trecho que o filme mais tem a dizer, mesmo que, novamente, nada traga de novo além do já conhecido olhar sobre relacionamentos amorosos.

Por mais que seja bastante óbvio quando seus signos narrativos são decifrados pelo espectador - o que não demora muito a acontecer -, trata-se de um filme simpático pela forma como é apresentado. Tanto Macaigne quanto Wyler estão corretos em cena, sem brilho mas também sem desapontamentos. Se o casal enfrenta dificuldades em conquistar o apreço do espectador, tal responsabilidade cabe muito mais à forma como sua história é contada do que propriamente ao trabalho dos protagonistas.
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