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    Marcelo Yuka no Caminho das Setas
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Marcelo Yuka no Caminho das Setas

    Papo franco

    por Francisco Russo

    9 de novembro de 2000. Por mais que Marcelo Yuka já tivesse uma carreira consolidada como baterista e compositor das canções d'O Rappa, é a partir desta data que o documentário sobre sua vida começa. Foi neste dia que, ao tentar impedir um assalto no Rio de Janeiro, ele recebeu nove tiros e ficou à beira da morte. Sobreviveu, mas passou a carregar sequelas do ocorrido. Preso a uma cadeira de rodas, Yuka teve que aprender a conviver com a dor constante. Ao relembrar os primeiros dias após o assalto, diz uma frase marcante: "só sei que minha vida acabou".

    A vida de Marcelo Yuka não acabou, mas mudou radicalmente. O lado politizado, manifestado nas letras de canções como "Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro" e "Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)", ganhou ainda mais força, impulsionado pelo inconformismo com a sociedade vigente e a própria situação em que se encontra. Por mais que Yuka tivesse consciência de sua situação, passou a ser impossível deixar de lado a influência do lado físico sob o psicológico, moldando sua personalidade a partir de então. É ao abordar este conflito, consigo mesmo e com o mundo à sua volta, que a diretora Daniela Broitman conseguiu fazer de Marcelo Yuka no Caminho das Setas uma cinebiografia bastante honesta, onde o mais interessante é a complexidade de pensamentos e emoções que formam o próprio Marcelo Yuka.

    Em meio a diversos relatos e flagrantes do dia a dia, onde fica nítido o esforço de Yuka para não se entregar à uma vida de conformismo, o que mais surpreende são as declarações francas sobre temas delicados. Um deles é sua saída d'O Rappa, onde não apenas o próprio Yuka mas o vocalista Falcão e outros músicos da banda ganham voz. Ao mesclar declarações deles, é criado um clima de tensão onde fica nítida a mágoa existente de lado a lado, não apenas sobre a saída em si mas também sobre a postura adotada pelos envolvidos. Impressionante, pelos motivos que levaram à saída de Yuka e pela forma como os envolvidos falam sobre o assunto, de peito aberto.

    Outro ponto que chama a atenção é a própria mudança paulatina na personalidade de Yuka, onde já perto do final ele mesmo reflete sobre momentos de sua vida. "Gosto muito do disco, mas ao ouvi-lo hoje percebo que nele há muita dor", diz sobre o álbum que fez com a banda F.Ur.To, seu primeiro trabalho pós-O Rappa. São momentos como este, de autorreflexão em meio à uma turbulência constante decorrente das dores física e psicológica, que dão brilho ao longa-metragem.

    Marcelo Yuka no Caminho das Setas é, acima de tudo, um filme franco. Com o espectador e principalmente com o próprio Marcelo Yuka, que se expõe bastante ao revelar suas ideias, angústias e esperanças, por mais que ele próprio tente controlá-las na medida do possível. Bom filme, que merece ser visto tanto por aqueles que se interessam pelo mito quanto pela pessoa.

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