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    Vestido de Noiva
    Críticas AdoroCinema
    2,0
    Fraco
    Vestido de Noiva

    Estrabismo Crítico

    por Francisco Russo
    Acompanhando de perto nossa gloriosa e idônea imprensa cultural fica-se claro que Vestido de Noiva, adaptação cinematográfica da legendária peça de Nelson Rodrigues, virou o saco de pancadas da moda, tomando o lugar de Sonhos e Desejos, outro filme nacional massacrado pela crítica. Uma pena, pois no caso de Vestido de Noiva o filme é, de fato, muito bom. Seu defeito - defeito? - talvez seja o de ter desconsiderado as fronteiras que separam o cinema do teatro. E, bem... nem todo mundo que curte cinema gosta de teatro, ou melhor, nem todo mundo que entende de cinema entende de teatro. Vestido de Noiva é um filme absolutamente estruturado no texto, no diálogo. Não procure nos devaneios de Alaíde, a personagem central da história, efeitos especiais, locações paradisíacas ou mesmo uma mínima recriação de época (o filme se passa nos anos 40 em plena segunda guerra mundial). Na produção do diretor Joffre Rodrigues, filho de Nelson, não há nada disso, há sim, muito diálogo. Diálogos entre os personagens, dos personagens com o espectador e dos personagens consigo mesmos. Característica, aliás, recorrente nas peças de Nelson Rodrigues que primava mais pelo teor psicológico que a estética cênica. O cenário principal, aquele que o respeitável público devia enxergar, era o do interior conturbado, mesquinho, ingênuo, imoral, vil, enfim, humano, daqueles seres, não a iluminação, as trucagens, os elementos de cena. Vestido de Noiva, tanto a peça quanto o filme, se passa não em um cenário real, mas sim nos delírios de Alaíde. Moça que acabou de se mudar com a família para um casarão onde viveu uma famosa cortesã, madame Clessi. Logo Alaíde irá encontrar os diários da tal cafetina e se fartar com suas memórias indecorosas. Até aí o filme segue linear, facilmente degustável. O problema é quando Alaíde sofre um atropelamento. A partir daí a realidade se estilhaça. Não sabemos mais o que é concreto, o que é imaginação e o que é delírio de uma mulher à beira da morte. E é aí que o filme ganha sua potência dramática e se mescla com o teatro. É necessário ler os personagens, entender suas motivações, extrair dos diálogos o que é verdade, o que é visão, alucinação. O que aconteceu de fato e o que é fantasia. Quais são os vivos e quais são os fantasmas Lá pelo meio da trama Alaíde diz estar se sentindo confusa, sem saber o que é real e o que não é, bem, a intenção era essa mesma. Confundir os personagens e o espectador. Não é a toa que a crítica, acostumada a hambúrgueres e fast food cinematográficos, não digeriu o filme. Vestido de Noiva é para quem tem paladar apurado. Porém, apesar do texto contar com o pedigree de Nelson Rodrigues, são os atores que fazem jus a excelência de nosso maior dramaturgo. Afinal o teatro é a terra santa da interpretação (e Vestido de Noiva é uma peça filmada, para o bem ou para o mal). Simone Spoladore está digna no papel de Alaíde, bela, sob a luz da fotografia seca de Nonato Estrela. Bete Mendes também convence no papel de sua mãe, que comicamente passa todo filme secando o suvaco com um leque, uma licença ao fantástico e ao absurdo, sempre presente nos textos de Nelson. Marília Pêra como madame Clessi, o principal alvo dos delírios de Alaíde, está correta no papel, mas com um sotaque francês que ora soa afetado e artificial, mas que não macula de todo o ar teatral do filme. No entanto os grandes trunfos da produção são mesmo Marcos Winter e Letícia Sabatella. Winter, sempre mediano, mesmo na tv, incorpora como uma luva Pedro, o marido infiel de Alaíde. Há muito tempo não se via no cinema um cafajeste tão escancaradamente bacana e à vontade em sua condição de canalha. Sabatella, como a irmã ciumenta e vingativa, aparece pouco, só na segunda metade do filme, mas sua figura é a mais tipicamente Rodrigueana; rancorosa, dissimulada, trágica, incestuosa. A peça de Nelson Rodrigues fez história. E também teve a ousadia de juntar no mesmo balaio as duas linguagens, teatro e cinema. A peça, encenada em 1943, tinha luz de cinema e se valia do recurso de contar várias tramas ao mesmo tempo, sobre vários palcos sobrepostos. Não é à toa que é considerada o marco zero do teatro moderno no Brasil. Como o filme, também sofreu pesadas críticas na época, mas mudou radicalmente o jeito de se fazer teatro no Brasil. Graças a revolução de Vestido de Noiva, hoje Nelson Rodrigues, que tem seus textos encenados da Polônia a Miami, é referência máxima quando se fala em teatro brasileiro. Portanto é curioso que sua ópera prima tenha sido tão mal recebida pela inteligentzia cinematográfica, os mesmos críticos que aplaudem de pé a animação Deu a Louca na Chapeuzinho cochilam na exibição de Vestido de Noiva. Nada contra a animação gringa... mas realmente alguma coisa parece estar fora da ordem. Críticos do meu Brasil, aconselho-os a irem mais aos teatros (há sempre uma peça do mestre em cartaz), ou ler os livros do autor de Bonitinha Mas Ordinária que estão sendo relançados - todos - pela editora Agir. O único risco é se apaixonar por seus enredos transcendentais e seus personagens humanamente mediúnicos. Ou melhor, corram para o cinema enquanto é tempo e revejam Vestido de Noiva. Óbvio ululante, um dos melhores filmes do ano. Agradecimentos Especiais a Pedro da Costa.
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