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    Ouro
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Ouro

    Z menor

    por Rodrigo Torres
    Matthew McConaughey reconstruiu sua carreira nos últimos anos, por projetos sérios, papéis ótimos e até variados, mas nem tanto. Nos personagens-títulos de Killer JoeMud (um cruel, outro folclórico), passando por sua grande participação em O Lobo de Wall Street, a consagração no Oscar por Clube de Compras Dallas e a melhor atuação de todas, como o filosófico Rust Cohle de True Detective, há um aspecto que os conecta: a excentricidade. Seis anos depois, o esforço do ator em conferir peculiaridade a cada um desses tipos revela alto grau de esgotamento, em Ouro.



    Este original recém-lançado pela Netflix é um típico star vehicle — projeto feito para um ator específico mostrar seus talentos, brilhar, e a produção faturar em cima de sua atuação —, ainda que baseado em uma história real. Isso porque a força motriz de Ouro é seu protagonista: Kenny Wells, uma figura vulgar, destemperada, bêbada, cujas piores características se acentuam mesmo quando, contrariando as suas chances, ele reergue a empresa da família e se torna o maior minerador do mundo, ao encontrar uma enorme reserva do metal dourado na Indonésia.

    Assim, quem conduz o longa-metragem é Matthew McConaughey, mas não por emprestar seu talento a Kenny Wells. Reunindo todos os maneirismos operados em trabalhos recentes, o ator absorve o biografado por completo, se sobrepõe ao personagem. Resta a mera caricatura de uma pessoa, e, infelizmente, um pastiche do próprio McConaughey dos últimos anos. Algo muito semelhante aconteceu com Johnny Depp após viver Jack Sparrow na franquia Piratas do Caribe, muito embora a atuação de McConaughey seja condizente com a pouca dimensionalidade de Wells. Nos poucos momentos em que o personagem demonstra preocupação, sobriedade, seu intérprete atua com sutileza. Pena que seja raro.



    Do mesmo modo, Ouro se inicia de maneira promissora, com o passeio da câmera por ambientes e o jazz na trilha sonora cadenciando um ritmo dinâmico que tão bem funciona, por exemplo, em A Grande Aposta — filme que investe no compasso das cenas e na dramaturgia para tornar inteligível seu texto difícil, técnico. Stephen Gaghan não demonstra esse anseio, e logo o arrojo cede a uma narrativa bem tradicional. Destinado a contar uma história, e apenas isso, o diretor de Syriana - A Indústria do Petróleo ao menos se mostra eficiente.

    O que é pouco. A história de Kenny Wells é interessante, sua estampa grosseira representa um pleno contraponto com o mistério que cerca o parceiro Michael Acosta (Édgar Ramírez), e essa relação poderia ser aprofundada de modo a tornar o desfecho de Ouro mais provocante. Ao contrário, o final é anticlimático, um tanto discursivo, e inclusive desperdiça a atuação competente de Ramírez — que exibe boa química com McConaughey apesar (e por causa) da dualidade composta por Wells e Acosta.



    Em um ano em que James Gray transformou a expedição do britânico Percy Fawcett pela floresta amazônica em um exercício imagético soberbo, pictórico, cuja narrativa intimista tanto aprofunda questões pessoais do explorador vivido por Charlie Hunnam (aproveitado ao máximo), como reflete a tragédia de todos os protagonistas da filmografia do cineasta, Ouro surge como uma história de drama e aventura ao mesmo tempo parecida e menor. Bem menor, que apesar de abordar temas semelhantes com os de Z - A Cidade Perdida, se contenta em apenas contar uma biografia interpretada por Matthew McConaughey — sem a autocrítica de se tratarem, cinebio e atuação, iguais a tantas outras. Assim, banais.
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