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Cemitério Maldito
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Cemitério Maldito

Caminhos guiados pela dor

por Barbara Demerov
Esta crítica possui alguns spoilers sobre a trama e as mudanças feitas para esta adaptação.

"Às vezes, morto é melhor". A icônica frase de Cemitério Maldito, presente tanto no livro quanto nesta adaptação de 2019 (e também na original, de 1989), sintetiza tudo o que a história propõe em essência. Mas o curioso é que, na nova versão do clássico de Stephen King, tal frase pode ser estendida para outras reflexões além do que pode acontecer após sentir uma dor que só a morte pode trazer na vida de alguém – especialmente na de um pai. Até que ponto podemos chamar de amor e não de loucura o ato macabro de buscar a qualquer custo a humanidade naqueles que já perderam a sua? Existe altruísmo neste raciocínio?

O medo da morte e o medo de falar sobre ela formam o cerne de Cemitério Maldito, longa que faz algumas modificações da obra original para justamente trazer à tona o lado mais humano e reflexivo da família Creed. Com 30 anos de diferença entre o lançamento de ambos os filmes, é inegável observar como a mesma narrativa teve a possibilidade de crescer sob novos olhares e sob a luz do nosso tempo, incluindo um maior desenvolvimento da esposa Rachel (Amy Seimetz) e da filha Ellie (Jeté Laurence), com a intenção não só de repaginar a história como também de mergulhar na composição da aura do cemitério. Se no original havia o excesso de terror gore, na versão de 2019 existe o cuidado em não extrapolar – equilibrando, assim, o terror psicológico com jump scares que acabam por ser em menor número do que o esperado, mas bem executados dentro de uma objetividade que perturba.



Cemitério Maldito é iniciado com um flashforward que intriga por não dizer muito, além de já destacar o tom sombrio que permeará ao longo de toda a narrativa. As cores frias, raramente sobrepostas com tons de vermelho, são praticamente uma extensão da família Creed, que ao se mudar de Boston para a pacata Ludlow imediatamente se afasta de boa parte da humanidade que os cercava e, em troca, encontra uma paleta fria de cores e sensações. A atmosfera carregada já está ali até antes do cemitério nos ser apresentado através de Ellie, quando segue a procissão de crianças para o funeral de um animal. A sensação de que o perigo é iminente não tarda muito e vai se refletindo nos olhares de Louis (Jason Clarke) e Rachel a partir do momento em que a morte se torna um assunto recorrente entre os dois: ele enquanto médico cético e ela ainda com dificuldade ao lidar com um grande trauma relacionado a uma perda.

A perda de um ente querido ganha bastante atenção por vias de Rachel e a irmã doente que tomava conta na infância, Ellie e seu gato Church e Louis com sua própria filha – além do susto com o aluno Victor Pascow (Obssa Ahmed), atropelado e morto no hospital da nova escola em que passa a trabalhar. Apesar de Louis não ter conhecido Pascow em vida, o jovem serve como um aviso (da mesma forma que no livro e no filme de 89) de que o cemitério é perigoso tanto para o pai quanto para o pequeno Gage (Hugo Lavoie e Lucas Lavoie), irmão mais novo de Ellie. Inclusive, é curioso ver como a inversão da morte original da história (que era a de Gage e passou a ser de Ellie) dá mais força para deixar explícito o apego do pai, além da criança não ser tão infantil (ela tem aproximadamente 10 anos) e ser capaz de se articular melhor em termos de atuação. Além disso, o fato de Gage ser um personagem secundário nesta versão salienta a intenção do filme não ser 100% gore, ao mesmo tempo que não torna o pequeno garoto dispensável; há até uma pequena "homenagem" que certamente trará lembranças do filme original. Dito isso, Jeté Laurence tem espaço para brilhar e realmente entra na pele da personagem, trazendo bastante intensidade em seus momentos pós-morte.



Importantíssimo para os desdobramentos da história, o cemitério maldito é um local que precisa emanar mistério e medo. Sua primeira parte, exposta para todos, é bem semelhante a do filme clássico, mas o verdadeiro cemitério, isolado e bloqueado, possui tantos efeitos visuais que isso acaba se tornando um problema. O excesso de CGI impossibilita um pouco a identificação de como é o local de modo mais abrangente. Há uma montanha onde os corpos humanos podem ser enterrados, mas os closes dados ao lago que precisa ser atravessado são muito próximos, além do tempo dedicado a conhecermos o local não ser suficiente.

O visual deixa a desejar e a impressão que fica é de enclausuramento dentro de um ambiente extremamente escuro e sem muitos detalhes que expliquem um pouco sua história. Além do mais, as crianças com máscaras que aparecem logo no início do filme ambém mal servem para contextualizar a origem do local e como ele se fortaleceu com essas seitas. Contudo, quem tem o papel de contar um pouco do background do cemitério é Jud (o excelente John Lithgow), vizinho dos Creed que também passa a se apegar a Ellie, mas acaba por ser a única parcela de discernimento que afirma que os mortos não devem sair de seus lugares.



Assim como brinca com as cores, quase sempre de tons cinza, Cemitério Maldito faz um ótimo trabalho nas cenas de susto e violência. Rachel sofre com o peso de seu passado, que teima em retornar psicologicamente assim que pisa na nova casa, e os diretores Kevin KölschDennis Widmyer constroem boas cenas dentro da residência que remetem à antiga casa da personagem. Porém, nenhuma cena consegue superar o terror do acidente que muda a vida dos Creed, quando um imenso caminhão atropela Ellie na estrada em frente ao seu quintal. O fato de Church (no momento do acidente já como zumbi) observar tudo o transforma numa testemunha do terror, ao mesmo tempo que o responsável.

Os corpos retornando à vida representam a vontade do próprio Louis de retomar aquilo que outrora foi seu – assim como representam um sentimento de posse, uma ilusão doentia relacionada à dificuldade em aceitar o presente. A própria reclusão de Louis ao ver que a filha saiu do cemitério diz muito: até quando ele poderia viver daquele jeito, garantindo a si mesmo que tudo ficaria bem isolando-se completamente do mundo? Ao pedir para sua esposa assustada abraçar uma Ellie completamente diferente e sombria, ele força uma verdade que não existe e que Rachel é humanamente incapaz de aceitar. A perda, que por mais trágica que seja faz parte da vida, se transforma em negação. O egoísmo de Louis torna-se o epicentro de uma ruína familiar.

Cemitério Maldito costura uma narrativa próxima da história original e ainda assim consegue incluir cenas inesperadas e impactantes; particularmente a que encerra o longa de maneira silenciosa e perturbadora. É inegável o esforço em destacar o que o medo de perder algo ou alguém pode fazer, assim como é admirável a escolha de inversão de papéis com o intuito de dizer, mesmo que nas entrelinhas, que tudo pôde ser resolvido. Da forma mais bizarra possível? Sim, mas da única que estava ali ao alcance. Às vezes, morto é melhor – e mais apropriado.
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