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    O Discurso do Rei
    Críticas AdoroCinema
    3,7
    Bom
    O Discurso do Rei

    Em Busca da Auto-estima

    por Francisco Russo

    O Oscar é a maior premiação do cinema. Ao menos teoricamente, seus indicados são os melhores filmes do ano. Uma injustiça aqui, outro exagero ali mas, na média, é o que se espera. Dentro desta lógica, do filme com maior número de indicações espera-se bastante. Se levar para casa os principais prêmios da indústria, como se estivesse numa avalanche, a expectativa aumenta ainda mais. O Discurso do Rei enquadra-se neste caso e, também por isso, decepciona. Não por ser um filme ruim - definitivamente não é -, mas por ser apenas bom. Pouco para um filme com tanta badalação.

    Toda a história é centrada em uma única situação: a dificuldade do futuro rei George VI (Colin Firth) com sua gagueira. Após tentar e fracassar com diversos médicos, sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) decide levá-lo a um terapeuta de fala diferente, com métodos próprios e bastante inusitados para as primeiras décadas do século XX. Ele é Lionel Logue (Geoffrey Rush), que desenvolverá uma relação de amizade com o, de início, segundo nome na lista de sucessão ao trono britânico.

    Apesar de aparentemente ser um tema simples, a gagueira de George traz muito mais do que uma mera dificuldade de fala. Há todo um lado psicológico e até mesmo social por trás dela. Desde os maus tratos recebidos na infância, considerados corriqueiros para uma educação formal entre os nobres da época, até o peso carregado pela posição que ocupa. George conhece bem o ofício de ser rei, incluindo os deveres e ônus diante do cargo. Mesmo assim, não se considera apto para a função. O motivo? A insegurança causada pela gagueira.

    É aí que entra o trabalho de Lionel. Mais do que propor exercícios vocais, sua função é atuar como psicólogo de George. Para tanto precisa derrubar uma imensa barreira, de desconfiança e até mesmo referente à diferença de classes. Sim, pois por mais que George leve em consideração o cidadão comum ele se coloca em um patamar acima deles. Sua reação à proposta de Lionel de que ambos teriam que se tratar como iguais é a maior mostra disto. Uma atitude de certa forma normal diante da educação que recebeu mas, de toda forma, elitista.

    O grande trunfo de O Discurso do Rei atende pelo nome de Colin Firth. Apesar de não emocionar, Firth consegue transparecer a dificuldade e o sofrimento sentidos por George a cada palavra balbuciada. É um trabalho de grande riqueza técnica, pela complexidade em transmitir de forma convincente a gagueira, que se reflete também no olhar de desespero transmitido em certos momentos. Outro destaque é o Lionel de Geoffrey Rush, nem tanto pela atuação mas devido à riqueza do personagem. A ousadia com uma pitada de imprudência de Lionel proporciona algumas das melhores cenas do filme, quando desafia, à sua maneira, o ambiente sisudo e repleto de regras da nobreza britânica.

    À medida que o tratamento avança, surgem melhoras. Não apenas na fala de George, mas em especial na sua auto-estima. Na verdade foi este o grande trabalho de Lionel, o de possibilitar que um homem talhado para o cargo que viria a ocupar tivesse a força necessária para exercê-lo, ainda mais em situação tão adversa como em plena 2ª Guerra Mundial. Uma história que, apesar dos temas tratados como pano de fundo, é contada de forma simples e objetiva, sem sobressaltos. Cinema clássico, trazendo de forma bem feita uma história verídica, mas apenas isto. Suficiente para transmitir a importância da fala na vida em sociedade e apresentar um pouco mais da rica história da realeza britânica, mas pouco para aquele que é considerado o grande favorito ao prêmio máximo do Oscar. De um filme com tal pretensão se espera bem mais.

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