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Uma piriguete em Las Vegas
De Francisco Russo
Piriguete: mulher fácil, que se veste com trajes mínimos e usa a sensualidade para conseguir o que quer. O termo estourou de vez graças à novela Avenida Brasil, através da personagem interpretada por Ísis Valverde. Entretanto, em outro continente, numa cultura inteiramente diferente, as piriguetes também dão as caras. Afinal de contas, é uma delas a personagem principal do equivocado O Dobro ou Nada, filme inacreditavelmente dirigido por Stephen Frears.
A história acompanha as aventuras de Beth Raymer (Rebecca Hall), uma desmiolada stripper que, um belo dia, resolve que aquela não é vida para ela. Parte imediatamente para Las Vegas, onde espera conseguir um emprego melhor, e logo cai nas graças do apostador profissional Dink (Bruce Willis). Por acreditar que Beth dá sorte, Dink a carrega para tudo quanto é lado. Não demora muito para que surja uma tensão sexual entre eles, o que não agrada nem um pouco a Tulip (Catherine Zeta-Jones), a esposa viciada em operações plásticas. Tudo isto em meio a perdas e ganhos em apostas, muitas apostas, já que Dink controla um elaborado sistema que lida com todo e qualquer esporte imaginado.
Há várias facetas em O Dobro ou Nada. A principal delas gira em torno da sensualidade de Rebecca Hall, que surge bastante bronzeada e usando shorts minúsculos para compor uma personagem no melhor estilo "ruiva burra". O grande problema não é sua caracterização, mas a forma como a personagem é inserida na trama como um todo. Beth é tão ingênua, até mesmo em relação ao uso da própria sensualidade, que soa falsa demais. O mesmo vale para Bruce Willis, um apostador tão boa praça que aparenta ser algo desconexo em um universo por vezes sórdido e baixo, como é o das apostas – isso sem falar de estar situado em plena Las Vegas, a cidade do pecado. Como resultado, os personagens acabam se tornando caricatos.
Veracidade, por sinal, é algo que o filme em momento algum aparenta, por mais que o longa-metragem seja baseado em uma história real. A impressão que passa é que Stephen Frears tentou dar ao filme um tom de farsa, compondo cada personagem com atitudes que soam estranhas dentro daquela realidade. Se a intenção era ressaltar o quão insólito eram tais atos, fracassou por não conseguir fazer com que o espectador acredite no que está vendo em cena, mesmo com uma boa dose de condescendência. Se a intenção era simplesmente fazer rir o filme também se sai mal, já que as poucas risadas vêm do quão inacreditável são certas situações exibidas.
Repleto de personagens inconsistentes e com reviravoltas repentinas, O Dobro ou Nada é uma comédia bastante desencontrada. Tanto por parte dos atores, mas especialmente por Stephen Frears. Difícil entender o porquê do veterano diretor, de tantos bons serviços prestados à sétima arte, ter topado esta bomba. Péssimo!
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