Meu AdoroCinema
Rango
Críticas AdoroCinema
3,5
Bom
Rango

Nem Só de Referências se Faz um Bom Filme

por Francisco Russo

"Nada se cria, tudo se copia". A famosa frase de Chacrinha se referia à televisão, mas pode ser também adotada para o cinema - ao menos por uma parte dele. Para combater a crise de novas ideias, Hollywood tem apostado na revitalização de elementos de sucesso do passado. São as chamadas "homenagens", que nada mais são do que copiar o estilo de grandes diretores ou gêneros de forma a fazer algo novo mas, ao mesmo tempo, requentado. A fórmula, quando bem feita, gera filmes divertidos como os dois Kill Bill. O problema é que, sem uma boa história, não há referência que dê jeito. É o caso de Rango.
 
Rango é um filme estranho, no limiar entre os públicos que deseja atingir. Apesar de ser produzido pela Nickelodeon, não é propriamente um filme infantil. Os personagens fofinhos e simpáticos foram trocados por seres sujos e feios, como lagartos, sapos, ratos, ácaros e outros do mesmo naipe. A linguagem é complexa, com palavras pouco afeitas aos menores, como hidratação, próstata, bolo fecal e partes íntimas. A própria história traz momentos de divagação, como o bizarro início onde o personagem título ainda não tem uma identidade definida. Isso sem falar no tom assustador de alguns personagens, ao menos sob o olhar infantil. Ao mesmo tempo, traz uma boa dose de cenas de ação que chamam a atenção, em especial a fuga da águia que resulta em uma garrafa de refrigerante, e personagens humanizados, cujo carisma supera o visual pouco agradável aos olhos.

Aos maiores, o filme conta com alguns atrativos extras. A abertura logo remete a Django, clássico do western spaghetti. As corujas mariachi são outro ícone presente, bem como sua intenção de "imortalizar com uma canção a história de uma lenda". Alguém lembrou de O Mariachi ou A Balada do Pistoleiro, ambos de Robert Rodriguez? Os planos utilizados remetem demais a Sergio Leone, outro clássico dos faroestes, e a trilha sonora possui inúmeras referências. De Pulp Fiction à Cavalgada das Valquírias, eternizada em Apocalypse Now, que surge com a bacana versão ao som do bandolim. Fora o estranho sem nome, da trilogia Por um Punhado de Dólares/Por uns Dólares a Mais/Três Homens em Conflito, que faz uma breve e importante participação. Só que, para perceber estas e outras referências, é necessário ter uma boa bagagem cinematográfica. Caso contrário, tudo passa em branco.
 
Em meio a tantas citações, surge a história. Um camaleão sem identidade sempre viveu em um aquário, até este cair de um carro em plena estrada. No deserto, ele chega a uma cidade perdida chamada Poeira, que sofre com a falta de água. Em meio aos locais, ele logo imita seus gestos e trejeitos e adota a alcunha de Rango. Não demora muito para que suas histórias façam sucesso e ele se torne o xerife. A moral da história está dada: "é preciso acreditar em algo". A população de Poeira acredita em Rango e ele próprio passa a também acreditar. Para alguém sem identidade, assumir a pose de herói é bastante conveniente, não apenas pela atenção recebida mas para afagar o próprio ego.

Daí para a investigação sobre o porquê da falta d'água é um pulo. Surge então o grande problema de Rango: a presença de uma história mal resolvida. O motivo da ausência da hidratação, termo usado pelo próprio filme, é mal explicado, também pela coexistência entre humanos e animais. Pela grandiosidade do envolvido, certos atos cabem aos humanos e não é mostrado de que forma, exatamente, ocorre a influência dos animais. Tudo fica meio no ar, onde se subentende quem é o culpado mas jamais é explicada a forma como ele agiu. A história é colocada em segundo plano diante do duelo final e as cenas de ação derradeiras, como também acontece nas sequências delirantes que marcam a virada do personagem título.
 
Rango agrada pelas várias menções a ícones da sétima arte, despertando um sorriso a cada referência reconhecida. Entretanto, apenas isto não basta para a realização de um bom filme. É preciso uma história que o sustente, que dê a base necessária para que as referências acrescentem ao que é visto em cena ao invés de ser a grande atração disponivel. Falta roteiro ao filme e, quanto a isso, nem mesmo o camaleão Johnny Depp pode dar jeito. Decepcionante.

Quer ver mais críticas?
  • As últimas críticas do AdoroCinema

Comentários

Mostrar comentários
Back to Top