Críticas AdoroCinema do filme Rango
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Críticas AdoroCinema Rango

5,0

De Roberto Cunha

Uma das primeiras coisas que despertaram interesse nesse projeto foi a coincidência de Johnny Depp interpretar um camaleão, uma vez que na vida profissional ele se adaptou perfeitamente aos diversos papéis por mais estranhos que fossem. Mas o espectador que compartilhar da mesma admiração pelo ator precisa ficar atento, pois o filme estreia no Brasil com 80% das cópias dubladas.

A decisão da distribuidora visa atrair a turminha com seus pais e pode até dar certo, mas existe uma grande possibilidade dos pequenos não se identificarem e ainda levarem alguns sustos. Produzida pelo Nickelodeon, canal por assinatura voltado para os mais novos, esta animação, diferente da maioria, não é voltada para a família. Para aqueles que não gostam de filmes dublados, a boa notícia é não contar com brasileiros "famosos" e sim com as vozes de profissionais do ramo, conferindo qualidade total ao resultado final dos sotaques roceiros.

Ao apresentar um camaleão estrábico, criativo e morador de um aquário seco onde fantasiava as mais inusitadas histórias, o longa até causa uma certa estranheza inicial. Mas após o acidente que o libertou e abriu as portas para a primeira experiência ao lado de um sapo, abaixo de um falcão e tendo uma garrafa de refrigerante como coadjuvante, já se sabe o que virá pela frente. A divertida sequência agradaria a criançada, mas o que vem em seguida muda o rumo da prosa.

Refém da nova realidade, o lagarto embarca numa aventura com diálogos complicados (podendo causar dispersão nos pequenos) para envolver o espectador na trama sobre identidade, que ganha contornos de faroeste quando o simpático animal descobre que precisa conhecer Poeira, uma inóspita cidade dominada pela corrupção.

Estranho numa terra estranha e seguindo seu instinto, ele tenta se "camuflar" imitando os habitantes numa sequência hilária. É quando começa a verdadeira transformação do protagonista sem nome e amigos, cujo destino o levou a adotar a alcunha de Rango. E em nome da esperança, passaria a acreditar em sua nova história de vida.

Com inúmeros personagens ricos em detalhes, narrado e cantado por quatro corujas mariachis, o filme é cheio de referências cinematográficas e torna-se quase impossível não se encantar por ele. Galopando pelo western spaghetti de Sergio Leone e abrindo espaço para Guerra nas Estrelas, de George Lucas, cuja Industrial Light Magic estreia com seus efeitos especiais, ficou claro que tem mais gente no concorrido mercado de animações.

Dirigido, produzido e criado por Gore Verbinski (Piratas do Caribe), é pura diversão ver os diálogos e closes, rendendo homenagens aos clássicos poeirentos. Como acontece também em todas as cenas, envolvendo uma população que guarda água no cofre de um banco, rende devoção a uma torneira e está intrigada com o sumiço do precioso líquido. E Rango "não perdoa" ao dizer que precisa descobrir a "origem hidráulica desse caos aquático". A trilha sonora de Hans Zimmer, oscarizado com O Rei Leão e autor de inúmeros sucessos, só colabora para o alto nível da produção.

Assim, quem quiser ouvir Depp e o super elenco de coadjuvantes terá que procurar um cinema com a cópia legendada, sem dúvida alguma. Por outro lado, a certeza é uma só: dublado ou não, Rango já é uma grata surpresa de 2011. E prepare-se para um conhecer um verdadeiro herói por acaso.

Veja imagens, curiosidades e assista os trailers (legendados e dublados) em Rango.

2,0

De Francisco Russo

"Nada se cria, tudo se copia". A famosa frase de Chacrinha se referia à televisão, mas pode ser também adotada para o cinema - ao menos por uma parte dele. Para combater a crise de novas ideias, Hollywood tem apostado na revitalização de elementos de sucesso do passado. São as chamadas "homenagens", que nada mais são do que copiar o estilo de grandes diretores ou gêneros de forma a fazer algo novo mas, ao mesmo tempo, requentado. A fórmula, quando bem feita, gera filmes divertidos como os dois Kill Bill. O problema é que, sem uma boa história, não há referência que dê jeito. É o caso de Rango.
 
Rango é um filme estranho, no limiar entre os públicos que deseja atingir. Apesar de ser produzido pela Nickelodeon, não é propriamente um filme infantil. Os personagens fofinhos e simpáticos foram trocados por seres sujos e feios, como lagartos, sapos, ratos, ácaros e outros do mesmo naipe. A linguagem é complexa, com palavras pouco afeitas aos menores, como hidratação, próstata, bolo fecal e partes íntimas. A própria história traz momentos de divagação, como o bizarro início onde o personagem título ainda não tem uma identidade definida. Isso sem falar no tom assustador de alguns personagens, ao menos sob o olhar infantil. Ao mesmo tempo, traz uma boa dose de cenas de ação que chamam a atenção, em especial a fuga da águia que resulta em uma garrafa de refrigerante, e personagens humanizados, cujo carisma supera o visual pouco agradável aos olhos.

Aos maiores, o filme conta com alguns atrativos extras. A abertura logo remete a Django, clássico do western spaghetti. As corujas mariachi são outro ícone presente, bem como sua intenção de "imortalizar com uma canção a história de uma lenda". Alguém lembrou de O Mariachi ou A Balada do Pistoleiro, ambos de Robert Rodriguez? Os planos utilizados remetem demais a Sergio Leone, outro clássico dos faroestes, e a trilha sonora possui inúmeras referências. De Pulp Fiction à Cavalgada das Valquírias, eternizada em Apocalypse Now, que surge com a bacana versão ao som do bandolim. Fora o estranho sem nome, da trilogia Por um Punhado de Dólares/Por uns Dólares a Mais/Três Homens em Conflito, que faz uma breve e importante participação. Só que, para perceber estas e outras referências, é necessário ter uma boa bagagem cinematográfica. Caso contrário, tudo passa em branco.
 
Em meio a tantas citações, surge a história. Um camaleão sem identidade sempre viveu em um aquário, até este cair de um carro em plena estrada. No deserto, ele chega a uma cidade perdida chamada Poeira, que sofre com a falta de água. Em meio aos locais, ele logo imita seus gestos e trejeitos e adota a alcunha de Rango. Não demora muito para que suas histórias façam sucesso e ele se torne o xerife. A moral da história está dada: "é preciso acreditar em algo". A população de Poeira acredita em Rango e ele próprio passa a também acreditar. Para alguém sem identidade, assumir a pose de herói é bastante conveniente, não apenas pela atenção recebida mas para afagar o próprio ego.

Daí para a investigação sobre o porquê da falta d'água é um pulo. Surge então o grande problema de Rango: a presença de uma história mal resolvida. O motivo da ausência da hidratação, termo usado pelo próprio filme, é mal explicado, também pela coexistência entre humanos e animais. Pela grandiosidade do envolvido, certos atos cabem aos humanos e não é mostrado de que forma, exatamente, ocorre a influência dos animais. Tudo fica meio no ar, onde se subentende quem é o culpado mas jamais é explicada a forma como ele agiu. A história é colocada em segundo plano diante do duelo final e as cenas de ação derradeiras, como também acontece nas sequências delirantes que marcam a virada do personagem título.
 
Rango agrada pelas várias menções a ícones da sétima arte, despertando um sorriso a cada referência reconhecida. Entretanto, apenas isto não basta para a realização de um bom filme. É preciso uma história que o sustente, que dê a base necessária para que as referências acrescentem ao que é visto em cena ao invés de ser a grande atração disponivel. Falta roteiro ao filme e, quanto a isso, nem mesmo o camaleão Johnny Depp pode dar jeito. Decepcionante.

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