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4,0
Muito bom
(500) Dias com Ela

Romântico e realista

por Francisco Russo

A comédia romântica é um gênero muitas vezes taxado como próprio para as mulheres. O sonho de um grande amor, a busca por alguém que te queira e te entenda, a imagem do príncipe encantado - que nem sempre é tão encantado assim, mas isto também faz parte do clichê -, a vontade de ser feliz. Atribuir estas características às mulheres nada mais é do que a manifestação do machismo existente na sociedade. Quer dizer que o homem não busca por algo do tipo? É claro que os sexos pensam e agem de formas distintas, mas colocar um lado como romântico e o outro como mero conquistador é uma forma simplista e maniqueísta de conduzir a situação.

500 Dias com Ela já ganha pontos por inverter a clássica situação da comédia romântica. Aqui quem se apaixona é ele, ou melhor, Tom Hansen. Ela, Summer Finn, também está interessada, mas não quer algo sério. Uma situação muito comum nos dias atuais, onde a emancipação conquistada pelas mulheres as equipara, também no lado sentimental, aos homens. O olhar romântico agora muda de enfoque, passando do feminino para o masculino. E o que se pode perceber é que ele não é tão diferente assim.

Todos que já passaram por algum tipo de relacionamento se reconhecerão, nem que seja por um momento apenas, com o filme. Do primeiro olhar até a dificuldade em se declarar. Das tentativas de aproximação até o início do relacionamento. Do encantamento da paixão à rotina e seu inevitável desgaste. O que fazer para mantê-lo. O que fazer para superá-lo. Como agir nos reencontros, quando há um resquício de sentimento envolvido. A fase down, quando tudo parece desmoronar e não há motivação para mais nada na vida. O dia seguinte.

Tudo o que acontece em 500 Dias com Ela é plausível. De certa forma lembra Antes do Amanhecer, não pelo estilo verborrágico mas pela condução de como nasce o interesse e o amor. Sim, o amor. Em uma de suas primeiras conversas, Tom e Summer falam sobre este tema, expondo seus pontos de vista. Ao término do filme o assunto retorna, agora tendo como bagagem a experiência que eles próprios passaram. São dois momentos cruciais para compreender o que é este filme, pois representam o estado de espírito que cada um vive naquele momento. A pergunta que fica não é se o amor existe, mas quando ele está propício para surgir.

A resposta, obviamente, não está no filme. Não está em lugar algum, para falar a verdade. Ninguém sabe o porquê das pessoas se apaixonarem umas pelas outras, o que de especial acontece para que este sentimento brote exatamente por aquela pessoa e por mais nenhuma outra. Ele simplesmente acontece. Exatamente isto é aqui retratado: todo o ciclo de quem se apaixona, do céu ao inferno, da felicidade extrema à vontade de que tudo acabe.

É claro que não basta apenas esta apresentação para que 500 Dias com Ela seja um grande filme. A química dos protagonistas Joseph Gordon-Levitt e Zooey Deschanel é essencial. O modo como a atriz é retratada a coloca nas nuvens, como se fosse uma verdadeira deusa - ok, a beleza de Zooey ajuda bastante. Trata-se do olhar do apaixonado para com sua paixão: algo etéreo, sublime, rejuvenescedor. A esperta edição também auxilia muito a história. Com idas e vindas no tempo, baseada nos dias do relacionamento entre Tom e Summer, são apresentadas pílulas do que aconteceu entre eles e, pouco a pouco, é possível descobrir sua trajetória. Uma espécie de quebra-cabeça dado para que o espectador monte.

500 Dias com Ela é um filme encantador. Pela sintonia entre atores, direção e história; pelas citações ao cinema e pela questão dos relacionamentos apresentada não por ilusões, mas por fatos reais, do cotidiano de qualquer um que se arrisca a amar e ser amado. Assim é a vida.

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