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    Dúvida
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Dúvida

    Em Dúvida

    por Francisco Russo

    "O que vocês fazem quando não têm certeza?"

    Alguns dão o benefício da dúvida, podem até desconfiar mas jamais definem uma acusação. Outros têm uma postura diferente, escolhem um lado por algum motivo - pessoal, geralmente - e crêem nele até o fim. Esta simples pergunta inicia Dúvida e também dá o tom de todo o filme. Ao longo de sua duração não há claras evidências de favorecimento a qualquer lado, mas um embate entre estes dois modos de tratamento.

    Um deles, o primeiro citado, vindo da jovem e ingênua irmã James, interpretada por Amy Adams. O outro, irascível e rígido, vindo da irmã Aloysius, de Meryl Streep. Mais do que um confronto de atuações, e aqui entra ainda o terceiro vértice da história, o padre Flynn de Philip Seymour Hoffman, há no filme visões de mundo completamente diferentes. Streep compõe sua personagem de modo sisudo e sem perdão, acreditando que a obediência e punição em casos onde ela não acontece é o melhor meio para educar os alunos da escola St. Nicholas. Flynn é liberal, acredita na bondade e na compaixão como meio de ajudar as pessoas. Entre eles está a irmã James, sem saber qual caminho seguir por estar... em dúvida. Seu comportamento diante dos alunos ora segue as pregações de Aloysius, ora as de Flynn. Ela própria crê que a igreja poderia ser mais aberta, mas tem receio de seguir este caminho devido à sua imaturidade e a onipresença de Aloysius.

    Há também a questão de comportamento no cotidiano, com as mulheres levando uma vida mais controlada e os homens de forma mais espontânea. Mais uma vez, um confronto entre o velho e o novo na visão de mundo. Apenas esta percepção já tornaria Dúvida um filme interessante, pelas disputas internas geradas dentro de um ambiente tão restrito como é a igreja católica. O desenrolar da trama é todo neste sentido, apresentando as peculiaridades e reações dos personagens de acordo com suas crenças. É assim que brilha o elenco. Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman e Amy Adams estão precisos em suas atuações, apresentando o que seus personagens requerem. Não há excessos, mesmo nos momentos mais duros, pois assim é a visão de mundo representada. São personagens-chaves não apenas para a trama em si mas também para entender aquele momento histórico, a década de 60, no qual a população negra enfim conquistava direitos até então renegados. Saindo um pouco do contexto da escola, Aloysius e Flynn representam também a visão de mundo existente na época.

    Porém, Dúvida em certos momentos peca como cinema. Oriundo de uma peça de grande sucesso, de autoria do próprio diretor John Patrick Shanley, o filme às vezes torna-se teatral demais. Além disto apega-se a velhos clichês cinematográficos para gerar tensão, como as constantes interrupções em momentos-chave da história - o ventilador ou o gato, por exemplo. O elenco consegue superar estas falhas, pela excelência das atuações. E aqui é preciso destacar também Viola Davis, que entra em cena após a metade do filme mas marca presença em uma emblemática conversa com Aloysius, na qual expõe sua opinião diante das desconfianças da madre. Uma cena surpreendente e ao mesmo tempo comovente, pela percepção do quanto o ser humano aceita se submeter em nome de um ideal ou projeto. Honra ou orgulho são deixados de lado, simplesmente porque há algo mais importante em jogo. Pode-se até discordar desta visão, só que, mais uma vez, é preciso lembrar-se da época histórica em que o filme é situado e a tensão racial existente nos Estados Unidos.

    Como é dito em determinado trecho do filme, "a dúvida pode ser um elo tão encorajador e certeiro quanto a certeza". Aloysius leva isto ao pé da letra, sem se ater às consequências de seus atos. Um bom filme, com destaque especial para a metáfora do vento. Através de uma história simples, percebe-se o grau devastador que um questionamento sem fundamentação pode causar à vida de alguém.

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