Becken Lima, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"Pedro Almodóvar, o último dos humanistas Para alguns, o amor como o conhecemos há muito acabou. Acredita-se que não há mais espaço para o amor em um mundo regido pela técnica, pela velocidade e pela procura incessante da perfeição e eficiência que caracterizam a sociedade moderna. Gasto, usado e abusado pelos jargões da publicidade e da indústria do entretenimento, o amor em seu contexto mais simples é hoje uma fantasia barata em que suas formas de representação e apreciação já parecem escassas e até incompreensíveis para toda essa nova geração. A busca de uma nova delicadeza do encontro, de uma nova definição e representação do amor baseada sobretudo na palavra, eis a missão da arte, eis a missão a que se dispõe esse grande artista que é Pedro Almodóvar. Em “Fale com ela”, seu novo filme, ele explora o encontro casual em um hospital de dois homens, Marco, um jornalista, e Benigno, enfermeiro. Emerge desse encontro uma tocante amizade, pois, é no estado de coma das mulheres que amam que encontram os seus pontos comuns e o suporte recíproco à dor que os faz partilhar o sentimento reconfortante de uma bela e verdadeira amizade. Em seus dois filmes anteriores, “Tudo sobre minha Mãe e Carne trêmula”, já havia implícito o esboço de uma nova casta familiar. Já a perspectiva temática de “Fale com ela”, resvala nessa nova família, mas alarga-se em outra direção, ao amor como anseio de completude individual. Traz, assim, um respiro para esse Amor sufocado entre a produção e o egoísmo e, ainda mais, para um novo tipo de amor que surge das cinzas de um século que, de tão absoluto em suas definições e acontecimentos, ainda não nos deixou. “Hable con ella” é uma anunciação. Anuncia que esse novo amor não renasce como uma esperança dos escombros da falida família nuclear, definitivamente constituída no século vinte. Esse novo amor surge BORDER="0" SCROLLING="no" FRAMEBORDER="0"> como o resultado das novas conquistas e formas de liberdade. Surge das práticas sexuais que vêm à superfície, ao senso comum do grande público, partindo de dentro das consciências e direitos sociais conquistados pelas minorias, principalmente homossexuais. Pedro Almodóvar retrata sua confusa contemporaneidade, cheia de multiplicidades, de matizes, de entrelaçamentos filmando essa nova família, o gênese desses novos costumes, novos sentimentos, delicadezas e códigos sociais que afloram. Para reforçar esse aspecto múltiplo, não oferece ao primeiro lance de vista qualquer obviedade. Se há Benigno, aparentemente efeminado e homossexual, todavia apaixonado beirando a obsessão pela bela Alice, há também Marco que, hétero e másculo, é capaz de chorar ternamente pela fugaz lembrança de um amor perdido. Se Marco é sensível e delicado, Lydia, a mulher por quem se apaixona, é toureira, dura, forte, quase masculina em suas resoluções. Dessa forma, Almodóvar manipula delicada e sutilmente o jogo de aparências. Inverte, subverte e distorce o sentido óbvio da psicologia de seus personagens. Não há nesse filme os tons de cores berrantes, característicos de seus filmes anteriores. Opta pela sobriedade e neutralidade fotográfica, cedendo espaço para que seu fime seja interpretado por nossos outros sentidos, como com Caetano cantando “Cucurucucu” e ainda melhor: com Elis Regina interpretando Tom Jobim ao fundo de uma trágica e brutal cena de tourada. Descompassa os significados do ritmo que as imagens nos transmite, impondo, pertubadoramente, a beleza da canção à ferocidade da batalha entre a mulher e o touro. Além dessa inversão na construção psicológica dos personagens e do seu domínio narrativo e estético, Almodóvar propõe à sua platéia um jogo: libertar-se dos clichês, do senso comum, da estética e da beleza plastificada hollywoodianos. Pede para que seu público arrisque sobre tudo que vê um novo olhar, uma nova forma de entender e refletir sobre as vidas e os fatos que se desenrolam em seu filme e o que refletem da nossa vida real e cotidiana. Nesse sentido, principalmente do muito que reflete Benigno, talvez poucos tenham percebido essa tal contradição: a de que os homossexuais venham salvar o Amor do supermercado, da solidão, do individualismo, do culto ao personalismo e ao sucesso a todo custo que veio no pacote cultural americano. Poucos hoje arrogam-se com todos os seus direitos na construção de uma família, mesmo que nos moldes antigos, como os homossexuais. Almodóvar é abertamente homossexual, porém não busca um cinema engajado, limitado a tribos, nichos ou guetos sociais. Demonstra com isso maturidade artística e o resultado é o alargamento do sentido do humano em seu filme. Tem uma clara e objetiva opção pela matéria espiritual comum da qual nós todos somos feitos, abolindo qualquer e completa definição absoluta ou maniqueísta sobre a natureza de cada um. Com “Fale com ela” Almodóvar assina o passaporte e ganha a passagem de além Cineasta, assumindo a chancela de artista universal."