Wesley de Castro, Leitor do Adoro Cinema - Nota 10:

"Fale com Ela (Hable con Ella) Espanha, 2002. Direção : Pedro Almodóvar Tela neutra, o pano sobe. Duas mulheres, ambas com os olhos fechados, se debatem num cômodo repleto de cadeiras, violentamente derrubadas por um zeloso assistente. Na platéia, dois homens: um escritor e um enfermeiro. O primeiro chora. O segundo descreve as minúcias do espetáculo para sua amada em coma. Tem início, então, uma obra de Almodóvar. Abordando mais uma vez a permissibilidade dos amores obsessivos, o “amadurecido” diretor espanhol centraliza sua acurácia psicológica nos comportamentos masculinos e (aparentemente) heterossexuais. Contando com a participação de excelentes atores (marca registrada do cinema de Almodóvar), os personagens atingem um patamar inigualável de transcendência interpretativa: não são mais personagens, são pessoas. Conforme acredita Benigno, as comatosas realmente se expressam ,com argúcia tão ou mais pungente que a dos seres humanos com atividade encefálica normal , podendo inclusive serem estes últimos os legítimos “desligados da realidade” (vide a relutância inicial com que Marco e a enfermeira Rosa se portam diante dos milagres e da Fé). Nesse sentido, merece destaque a supremacia da seqüência em que Caetano Veloso aparece cantando. Ainda que aparentemente vinculada a uma noção de oportunismo distributivo, tal seqüência desempenha uma função bastante sintética neste filme: no início, a câmera acompanha um jovem nadando em uma piscina. Ele sorri, já com a cabeça fora d’água (até então, só ouvimos os acordes da canção). Na cena seguinte, o público do concerto é mostrado, at ravés de um travelling horizontal para a esquerda. Vemos Marco chorando e, mais tarde, contar à sua amada Lydia detalhes de uma relação amorosa anterior. Frase que resume a síndrome evocativa de Marco: “esse Caetano me arrepia!”. Além de chamar a atenção pelo seu caráter sintético e evocativo, esta seqüência evidencia outro aspecto superior do filme: a extrema preocupação com o trabalho dos figurantes. Apesar de desempenharem tarefas aparentemente banais, os figurantes desta obra cinematográfica possuem vida própria. Seja a loira da platéia que lembra (fisicamente) Cecilia Roth, sejam os dois amigos (ou amantes) que se abraçam no aeroporto, seja o jovem que toca a mesma campainha duas vezes e, não obtendo resposta, vai embora como se nada tivesse acontecido. Em outras palavras: neste filme, todos os pequenos detalhes são literalmente importantes. Desde o surpreendente jogo de reflexos na cena em que Marco visita Benigno na prisão até as emocionantes participações de Geraldine Chaplin e Chus Lampreave. A primeira está sensacional como uma protecionista professora de balé, enquanto a segunda se encarrega de pronunciar críticas hilárias ao comportamento dos espectadores diante das manipulações exercid as pelos veículos da mídia/cultura de massa: reclama que a TV está cheia de programas ruins e sensacionalistas, entretanto lamenta que nenhum dos responsáveis por estes programas tenha vindo entrevistá-la. Aproveitando a linha reflexiva, pode-se perceber um tom igualmente socio-crítico nas conversas de Marco com a recepcionista da prisão, no programa de entrevistas em que Lydia participa no começo do filme e na maneira interesseira e/ou preconceituosa com que alguns personagens se referem à sexualidade indefinida de Benigno. Levando em consideração todos estes aspectos, não é exagero afirmar que Almodóvar concebeu mais uma obra-prima: o divertidíssimo meta-filme “O Amante que Encolheu” (igualmente evocativo) proporciona o mais belo, próximo e (in)autêntico close vaginal de toda a história (subjetiva) do cinema; as coreografias fugidias de Pina Bausch redefinem o conceito de perfeição corporal; o “amor psicopático”, através da dedicação inquestionável de Benigno, é aqui definitivamente associado ao teor fortemente sinonímico das palavras FIDELIDADE e VERDADE; e o (re)encontro final de Marco e Alicia, separados por uma cadeira vazia e interligados por um título apaziguador, se revela como uma poderosa demonstração do potencial transformador do otimismo. Apesar do título do filme sugerir uma idéia de prolixidade, é quase inevitável que o espectador saia da projeção cinematográfica completamente em silêncio. De imediato, fogem as palavras que possam descrever claramente a sensação única de se as sistir a/ viver este filme . Por outro lado, no interior do córtex cerebral ativo, ecoarão pungentemente os acordes sublimes da música de Alberto Iglesias, colaborador fiel do diretor em seus quatro trabalhos mais recentes. “Nada é tão fácil assim!”, diz a professora de balé. De fato. A visão de vários casais dançando em frente a um fundo verde só nos ajuda a concordar. Wesley Pereira de Castro."
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