Renato Rosatti, Leitor do Adoro Cinema - Nota 8:
"Dentre os diversos sub-gêneros do
horror, os filmes abordando a temática dos “mortos-vivos”
ou “zumbis” sempre despertaram uma grande atenção
nos admiradores do estilo. Desde o lançamento em 1968 do cultuado clássico
em preto e branco “A Noite dos Mortos-Vivos”, de George A. Romero,
os filmes de zumbis assassinos e sedentos por carne humana passaram a ser produzidos
em grande quantidade, povoando a imaginação dos fãs do
cinema fantástico com os piores pesadelos. Romero acabou criando uma
trilogia que ainda teve os consagrados “O Despertar dos Mortos-Vivos”
(1978) e “O Dia dos Mortos” (1985), ambos carregados de críticas
pertinentes, o primeiro sobre a sociedade de consumo e o segundo sobre a intransigência
militar, e seus filmes serviram de inspiração para cineastas talentosos
como o italiano Lucio Fulci (falecido em 1996) exercitarem suas habilidades,
ele que dirigiu um dos mais violentos exemplares do gênero, “Zombie
Flesh-Eaters” (1979). Insistindo em apostar nessa fórmula e acreditando
que o tema, mesmo apesar de desgastado e já muito explorado, ainda poderia
render uma boa história de zumbis adaptada para os tempos modernos, o
diretor inglês Danny Boyle lançou “Extermínio”
(28 Days Later), que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros em 25/07/03, chegando
um pouco atrasado para nós, já que estreou na Inglaterra em Novembro
de 2002, inclusive tendo a versão em DVD já lançada por
lá também. Com roteiro de Alex Garland, autor do livro que inspirou
o roteiro de “A Praia” (2000), também dirigido por Danny
Boyle, o filme mostra um laboratório de pesquisas com macacos utilizados
como cobaias em experiências secretas, sendo invadido por um grupo de
ativistas que exigem que os animais sejam libertados. Uma vez desconsiderando
a informação de um técnico local de que os macacos estariam
contaminados com um vírus letal transmissor da raiva, as jaulas são
abertas e uma epidemia mortal se espalha pela cidade de Londres, numa enorme
velocidade de devastação. Em exatos vinte e oito dias depois (daí
o título original do filme), um jovem entregador de encomendas chamado
Jim (Cillian Murphy), desperta de um coma na UTI de um hospital, devido a um
acidente de carro. Desorientado, ele descobre que o prédio está
misteriosamente vazio e sai sem rumo pelas ruas desertas da cidade, encontrando
desordem e cadáveres espalhados, além de horríveis criaturas
que tentam devorá-lo, infectadas pelo vírus libertado no laboratório
e que se transmite pelo sangue e saliva. Jim acaba encontrando outros sobreviventes,
Selina (Naomie Harris) e Mark (Noah Huntley), que o levam para um local seguro
e informam sobre o caos instaurado na Inglaterra com a proliferação
dos “infectados”, pessoas que se transformaram em “mortos-vivos”,
e que aparecem apenas à noite para se alimentarem. Os três jovens
partem pela procura dos pais de Jim na inútil tentativa de encontrá-los
com vida, e após um confronto mortal com as criaturas “infectadas”,
encontram outros dois remanescentes da população ainda ilesos
da ação do vírus, na figura de um pai, Frank (Brendan Gleeson),
e sua filha adolescente, Hannah (Megan Burns), que estão refugiados no
alto de um edifício. O grupo formado tenta sobreviver em meio ao caos
até receberem informações através de uma mensagem
gravada captada por um rádio, sobre as atividades de um grupo militar
comandado pelo major Henry West (Chistopher Eccleston), que está convocando
a todos os sobreviventes que se encontram isolados para se juntarem a ele na
tentativa de combater a praga dos zumbis, receberem proteção e
reestabelecer a ordem. Eles decidem ir ao encontro dos militares de carro numa
jornada perigosa pela cidade devastada, com direito a uma tensa sequência
passada no interior de um túnel escuro, sem saberem que ainda enfrentariam
problemas reveladores com os militares, muito maiores que a ameaça dos
próprios “infectados” canibais. “Extermínio”
lembra raridades do cinema fantástico do passado como “Mortos Que
Matam” (The Last Man on Earth, 1964), com o lendário Vincent Price,
e sua refilmagem “A Última Esperança Sobre a Terra”
(The Omega Man, 1971), com Charlton Heston, ambos baseados no livro “Eu
Sou a Lenda”, de Richard Matheson, além de outros similares mais
recentes como “Resident Evil – O Hóspede Maldito” (2002).
Como já era esperado, o filme de Danny Boyle apresenta muitos dos elementos
mais básicos e característicos presentes em filmes de zumbis e
similares. Historicamente a motivação para a criação
da legião de mortos-vivos do cinema teve várias origens diferentes
exploradas pela infinidade de filmes do tema, desde a contaminação
por uma substância oriunda de um meteoro vindo do espaço, passando
por rituais de magia negra e vodu, até a ação nociva de
misteriosos gases letais de experiências secretas do governo. Só
que no caso de “Extermínio”, as criaturas foram geradas pela
contaminação de um vírus moderno de laboratório
que ao invés de originar uma doença mortal, acaba na verdade despertando
a raiva e a fúria da humanidade, sentimentos primitivos sempre existentes
em nossa espécie e apenas camuflados por aqueles que conseguiam controlá-los,
enfatizando o quanto perigosos e “irracionais” os seres humanos
podem ser. E uma das características que diferenciam os “infectados”
desse filme para os tradicionais zumbis apresentados em “A Noite dos Mortos-Vivos”
por exemplo, é a agilidade e rapidez nos movimentos, tornando muito mais
perigosos os seus ataques fatais. A maior e mais oportuna crítica presente
no argumento de “Extermínio” é justamente a deterioração
da racionalidade humana ao logo de sua história, chegando a uma condição
duvidosa de civilidade nesses tempos modernos de guerras violentas por interesses
econômicos e ameaças de conflitos nucleares e armas químicas.
Pois em determinado momento do filme, ocorre uma inversão de valores
entre os perigosos “infectados irracionais” e os remanescentes humanos,
evidenciando a essência maléfica da humanidade, com seus últimos
descendentes fazendo da insanidade e violência seu instinto básico
de sobrevivência em meio ao caos de uma sociedade em desordem. A primeira
metade do filme é claramente superior evidenciando as consequências
depressivas de um apocalipse, com cidades inteiras vazias, dominadas apenas
à noite pelos “infectados”. A partir do momento em que o
pequeno grupo de sobreviventes entra em contato com uma base militar situada
próxima à Londres, a intensidade dramática da história
diminui ao esbarrar em alguns clichês previsíveis, principalmente
quando ocorre uma mudança muito rápida e exagerada de comportamento
com o personagem Jim, que era um simples entregador de encomendas despertado
de um coma, evidenciando situações que podem ser consideradas
inverossímeis, apesar de toda a agressividade hostil do novo ambiente
criado pela disseminação do vírus letal da raiva. E o desfecho
não foi plenamente satisfatório, sendo previsível e de
pequeno impacto, e que poderia ser explorado de forma mais sombria e não
convencional. Apesar desses detalhes, “Extermínio” pode ser
considerado mais um grande filme a abordar a temática de zumbis através
de seus violentos “infectados” dos tempos modernos, sendo juntamente
com “O Chamado” (The Ring), os melhores filmes de horror lançados
nos cinemas brasileiros até aproximadamente a primeira metade do ano
de 2003. O diretor Danny Boyle nasceu em 1956 em Manchester, Inglaterra, e entre
seus trabalhos anteriores destacam-se “Cova Rasa” (Shallow Grave,
1994), “Trainspotting – Sem Limites” (Traispotting, 1996)
e “A Praia” (The Beach, 2000). O elenco de “Extermínio”
é em sua maioria composto por atores desconhecidos, exceto por Brendan
Gleeson que foi visto recentemente em “Gangues de Nova York” (2002),
de Martin Scorsese, e por Christopher Ecclestone, que participou de “ExistenZ”
(1999), de David Cronenberg, e “Os Outros” (2001), de Alejandro
Amenábar. Curiosamente, para a gravação das cenas com a
cidade de Londres deserta, simulando uma devastação causada pela
proliferação de um vírus mortal, a equipe de produção
realizava sempre as filmagens de manhã bem cedo, antes do início
do habitual tumulto de carros e pessoas, típico de uma grande cidade,
recebendo o auxílio da polícia para a organização
das atividades. E um fator positivo nesse caso foi a utilização
de vídeo digital para o filme, cujo processo de filmagem é muito
mais rápido e prático, eliminando grande parte do trabalho e permitindo
agilidade para filmar as cenas nas ruas desertas da cidade. Como resultado,
temos imagens sombrias e mais associadas a um cenário urbano pós-apocalíptico.
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A propósito, um dos destaques de “Extermínio” é
justamente uma sequência onde o protagonista caminha desorientado numa
Londres totalmente vazia, com carros tombados e sujeira para todos os lados,
num incrível clima de depressão. Aliás, todo filme que
mostra situações ambientadas em cenários urbanos desertos
e abandonados sempre causam um forte impacto, transmitindo um amargo sentimento
de desolação e inevitavelmente impressionando o público
com a possibilidade de um evento depressivo de destruição. O cinema
já produziu dezenas de exemplos dentro dessa idéia e somente para
ilustração alguns poucos casos podem ser conferidos em filmes
recentes como “A Dança da Morte” (1994), “A Reconquista”
(2000), “Vanilla Sky” (2001), e “Reino de Fogo” (2002),
ou outros mais antigos como o super obscuro e raríssimo “A Invasão
do Centro da Terra” (Invasion From Inner Earth, 1974), de Bill Rebane,
além de episódios de séries de TV como o piloto da antiga
“Além da Imaginação” (1959/64), chamado “Onde
Estão Todos?”, ou “O Dia em que a Terra Acabou” de
“Viagem ao Fundo do Mar” (1965/69), ou ainda mais recentemente com
a excelente série “Night Visions” (2001), através
do episódio “O Labirinto”, dirigido por Tobe Hooper. A idéia
do fim da raça humana, com cidades inteiras vazias, destruídas
ou não, certamente é uma das premissas mais apavorantes para um
argumento do mais absoluto estado de horror. Com um orçamento modesto
de US$ 15 milhões, o filme surtiu um resultado satisfatório para
os produtores, e numa astuta jogada de marketing eles informaram que algumas
cópias exibidas nos cinemas americanos vieram com um extra interessante
na forma de um final alternativo, exibido logo após os letreiros finais.
Os produtores revelaram também que o vírus de “Extermínio”,
responsável pela contaminação da raça humana transformando
as pessoas “infectadas” em zumbis, foi inspirado em doenças
dos tempos modernos como a “aids” e o “ebola”, de origens
misteriosas e que tem sido um dos grandes males da civilização
dos tempos modernos, dizimando milhares de pessoas ao redor do planeta. O título
nacional “Extermínio” foi até bem escolhido, tendo
relações diretas com a história do filme, porém
ainda assim, o ideal seria apenas traduzir literalmente o original para “28
Dias Depois”."