Anna Monteiro (e-mail), Leitora do Adoro Cinema - Nota 10:

"Certas sensações a gente não esquece nunca, quer tenhamos 10, 15, 30, 50, 80 anos. A primeira paixão, o primeiro sutiã, a compra do primeiro carro, do primeiro apartamento, o primeiro estágio, o casamento, etc.

A sensação de medo do inexplicável é um bom exemplo do que a gente não esquece e 'O Exorcista' confirma isso, quase 30 anos depois de seu lançamento. O filme, de William Friedkin, que estreou nos Estados Unidos em 1973 e chegou ao Brasil em 1974, ainda mexe com os medos mais profundos da platéia, mesmo acostumada aos Freddies Krugers, a muita baba e vômito verde que infestaram o gênero a partir dos anos 80. A grande diferença de 'O Exorcista' para os demais filmes de terror é que nada nele se explica. É um terror psicológico que chega a tirar o ar, é o demônio destruindo uma menina e sua família a troco de nada e o final nem é propriamente a vitória de Deus, como gostariam os mais católicos. Mesmo agora, ao ser exibido para uma platéia calejada em terror, continua provocando os mesmos risos nervosos, os mesmos gritos e a mesma inquietação de três décadas. Ninguém escapa incólume, alguma reação há de se esboçar.

'O Exorcista - versão do diretor' inclui cenas que não tinham entrado na montagem original para que o filme não ficasse tão assustador e chocante para a época. Os 11 minutos acrescentados por insistência do roteirista e autor do livro, William Peter Blatty, apresentam cenas com silhuetas projetadas do demônio, como as imagens que perseguem a mãe de Regan pela casa sem que ela veja, e a seqüência horripilante em que a menina desce as escadas de costas, de quatro, como uma imensa aranha. As imagens do demônio projetadas perdem um pouco nesses 30 anos, já que os efeitos especiais de agora as deixam parecendo figurinha, mas não comprometem em nada a qualidade do filme e ressaltam a técnica apurada que se usou na época.

A menina Regan, de 12 anos, filha de uma atriz consagrada, que filma em Washington, é dócil e ingênua como ainda eram as crianças da década de 70. Seu amigo imaginário, o capitão Hasting, não causa nenhum espanto à mãe, liberal, que acha engraçado que a filha se comunique com ele através de uma tábua de ......... (COMO SE CHAMA ESSA TÁBUA), que encontra no sótão. Brinquedo-cabeça da geração de 70, que acreditava em política, artes, liberava o sexo, e questionava com mais veemência os formalismos das religiões. Mãe e filha levam uma vida absolutamente normal, vivendo numa casa confortável em Georgetown, o ex-marido distante, vivendo na Europa, causando ressentimentos quando esquece o aniversário da própria filha.

De repente, o comportamento da menina começa a se modificar. De dócil, passa a ser ríspida e a falar palavras de baixo calão. A partir daí, as mudanças na personalidade se acentuam e o medo passa a se instalar na platéia. É o inexplicável dando a linha mestra do filme, como um bom triller psicológico deve fazer. Os médicos não explicam a doença da menina Regan, que neurologicamente não tem nada. Eles a recomendam a psicólogos que não têm o que fazer com ela e, por fim, a recomendam a um exorcista. A mãe, cética e desesperada, implora ao padre pelo exorcismo. E o padre, por sua vez, não acredita em exorcismo, diz que há séculos a igreja não o pratica e recomenda um psiquiatra.

O desespero é total e o medo do que está acontecendo é absurdo. E o que está acontecendo não é mole nem agora, no século 21, como não era há quase três décadas: cama que se sacode violentamente, vozes roucas saem da boca da menina em palavras profanas e línguas mortas, masturbação com crucifixo, vômito verde e assassinato.

Desconfiado que aquilo possa ser mesmo uma possessão, o padre Karras, que vive um drama pessoal, leva o caso à Igreja, que chama um conhecido exorcista para cuidar do caso. A cena em que o padre Merrin chega à casa de Regan marcou gerações de fãs e dá vontade de aplaudir quando aparece: é o cartaz do filme, com a silhueta do padre iluminada pela lâmpada da casa, abrindo o portão.

Antes e agora, a edição é perfeita. Como todo bom filme, 'O Exorcista' se revela logo na abertura, com a seqüência filmada no Iraque, onde o padre Merrin acha uma escultura primitiva do demônio. Ali, o trabalho duro, o sol quente, a areia vermelha, a balbúrdia e a música de fundo dão uma mostra de que será difícil se manter alheio ao terror que nos espera. Do sol se pondo por trás da estátua de demônio, corta para a casa, alegre e feliz, em Washington. Roteiro preciso, elenco afiado, agilidade de montagem e uma boa trilha sonora, que reforça o suspense e o terror sem as obviedades que marcam as produções atuais, fizeram de 'O Exorcista' um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, só sendo superado pelo magistral 'O Iluminado'.

Alguns críticos dizem que nesses trinta anos o filme perdeu qualidade e só faz rir de tão patético. Acho que estes estão de má vontade. Outros vêm falando que a nova montagem reforça a lógica do filme: admitir que o mal existe e deve ser combatido e reconhecer o poder maior de Deus. Não sei se é essa a mensagem ou mesmo se se pretendeu passar alguma, mas numa possível visão pragmática, o demônio do filme tem que ser combatido porque está levando a menina à morte ou a uma existência absurda, deformada. Para que Deus iria deixar uma menina ser dominada por um espírito maléfico e depois provar que Ele é bom e a livra do mau?

Pontificando ou não uma mensagem divina, o filme é tão bom que suas continuações foram pífias e empoeiram em prateleiras de locadoras de vídeo. É uma tarefa insana propôr uma seqüência para um clássico dessa altura. Qualquer hora, vão chamar um diretor moderninho de Hollywood para fazer um remake, como é moda e como se fez com 'Psicose'. É impossível dar certo, clássico é clássico, não se mexe, não se refilma, não se continua - 'Hannibal' é um bom exemplo - e ponto final."