Mário Gomes Jr. (e-mail), Leitor do Adoro Cinema - Nota 4:

"O humor-pesado, com apelo à agressividade, é o ingrediente básico de "Eu, Eu Mesmo e Irene"(2000), que explora o tema de dupla personalidade através de uma irrisória trama policial, para mostrar a um público menos exigente, mais uma série das trapalhadas do excêntrico e exagerado Jim Carrey.

A sociedade de Rhode Island é a principal responsável pelo conflito interior do bondoso e perturbado Charlie Baileygates, uma réplica dos típicos personagens interpretados pelo comediante Jim Carrey (1962-  ). Charlie é um policial urbano que sempre evitando incomodar o próximo, acaba "engolindo a seco" muita ofensa das pessoas, principalmente após ter sido traído explicitamente por sua mulher, o que causou-lhe um colapso mental. Como resultado, transforma-se ocasionalmente no mau caráter Hank para tentar resolver os seus apuros. Jim Carrey consegue delinear bem as duas faces do seu personagem, muitas vezes lembrando Steve Martin (1945-  ) em "Um Espírito errado Baixou em Mim" (1984) de Carl Reiner (1922-  ), como também as travessuras dos debilóides interpretados por Jerry Lewis (1926-  ) nas décadas de 50 e 60.

Além de abordar a fragilidade do personagem principal, "Eu, Eu Mesmo e Irene", dos irmãos Bobby ( 1958- ) e Peter Farrelly (1957-  ), possui uma descartável trama policial, envolvendo a heroína Irene Waters, vivida pela atriz Renée Zellweger (1969-   ). Para evidenciar a aberração proposta no filme, percebe-se a presença constante de personagens caricatos, como o motorista anão Shonte Jackson (Tony Cox); o albino "Gasparzinho" (Michael Bowman - 1975-  ), e os três divertidos filhos postiços de Charlie, Jamaal (Anthony Anderson - 1970-  ), Lee Harvey (Mongo Brownlee - 1971-  ) e Shonte Jr. (Jerod Mixon - 1981-  ). Vale a pena ressaltar as simpáticas locações externas do pequeno Estado de Rhode Island, aliada a uma divertida trilha musical, como também a interessante apresentação de todos os figurantes nos créditos finais.

Um filme razoável com boas tiradas à moda norte-americana, resume "Eu, Eu Mesmo e Irene", que mesmo tratando-se de uma comédia, provoca certa insatisfação nos espectadores, talvez pelo dilema que acomete o pobre Charlie, uma vítima da opressão social; ou talvez pela presença de algumas cenas grotescas, apelando para perversão sexual, que poderiam ser descartadas, sem nada alterar a "mensagem" proposta.
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